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O serviço de entregas de Kiki, do Hayao Miyazaki





Sinopse:
Kiki é uma bruxinha que vive em um mundo não muito diferente do nosso, onde as bruxas são consideradas pessoas boas. E diz a tradição que quando as bruxas completam treze anos, elas devem sair de casa para um treinamento de um ano. E assim Kiki segue em uma jornada para iniciar seu treinamento. Pelo caminho encontra uma cidade onde decide ficar e abrir um serviço de entregas. Lá ela conhece muitas pessoas diferentes e se envolve em muitas aventuras.

Eu me senti inspirado a assistir a esse filme por intermédio de um vídeo do youtuber inglês Charlie McDonnel (charlieissocoollike). O vídeo falava sobre os vários filmes que mudaram sua vida, e esse me chamou a atenção por ser uma animação japonesa. A vontade de assistir cresceu mais ainda quando procurei a respeito e descobri que era do Studio Ghibli e dirigido por ninguém menos que Hayao Miyazaki, o "Walt Disney japonês".

Quase sempre mostrando mundos fantásticos, a complexidade das localizações surpreende até os olhos mais treinados. Cenários exuberantes, cheios de vida, cheios de animais. Isso se deve à própria crença pessoal de Hayao Miyazaki acerca do equilíbrio ideal entre homem e natureza.

Frequentemente seus filmes falam sobre a infância e a juventude. Mostram, de alguma forma, o equilíbrio entre as fases da vida, desde o começo até seu fim. O contato com a natureza e a desconstrução de um arquétipo de vilão, a desestruturação da visão maniqueísta do universo.


Neste filme em particular, eu tive que lidar com duas opiniões. A minha e a do Charlie, porque eu assisti à crítica antes do filme. Então tentei apagar a ideia que eu já tinha formada na cabeça. Não consegui.

Para o Charlie, o filme faz uma analogia perfeita com o bloqueio criativo. No caso, ele traça um paralelo entre uma parte do filme e sua própria jornada como escritor. A parte é quando Kiki, tão cansada do emprego nada recompensador, não consegue mais voar. A atividade que ela mais gostava, tão intuitiva, havia se tornado um desassossego, um mero vínculo empregatício.

Já eu não consegui fazer essa associação com tanta facilidade. Embora o filme seja doce, contado do ponto de vista de uma criança, não consegui me identificar tanto com a personagem. Kiki gosta de aventuras, tem um coração gigante e ajuda por ajudar.

Dou ao filme quatro estrelas. A animação espetacular me conquistou desde o primeiro instante. A história, porém, poderia ter sido mais desenvolvida em torno de certos problemas pessoais, como a insegurança e a perda daquilo que era mais familiar à protagonista. Em torno do abandono dos pais, da busca para encontrar uma cidade que a acolhesse, da descoberta de uma nova carreira onde pudesse fazer o que amava, de voar e da perda dessa mesma habilidade.


Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez

Gabriel García Márquez
I.S.B.N.: 9788501078896
Editora Record
Brochura
Português
448 páginas
Encontre na Saraiva.

Sinopse:
Depois de uma jornada que levou mais de vinte famílias a fundar o vilarejo de Macondo, Cem anos de solidão começa mostrando o líder do movimento e grande patriarca dos Buendía, José Arcadio, numa visita a ciganos nômades instalados no local. Influenciado pelo líder, Melquíades, e pelas fascinantes inovações que lhe são apresentadas, José Arcadio começa uma incessante e desenfreada busca pelo conhecimento, tendo como um dos objetivos encontrar a mítica Pedra Filosofal. Então, sem comer, sem dormir e sem viver, ele mergulha num sonho insone, deixando para Úrsula Iguarán, sua sábia e forte esposa, a responsabilidade de cuidar da casa, dos três filhos – José Arcadio, Amaranta e Aureliano, posteriormente responsáveis por estender a árvore genealógica da família – e de seu espólio.

O mundo ganha o apreço dos Buendía em detrimento do vilarejo de Macondo. Entre revoluções liberalistas e anarco-sindicalistas, o livro se revolta entre confusões do que é realidade, sonho, fé, vida, morte ou qualquer outra ideia intangível. A solidão inerente à condição humana se exemplifica em cada um de seus personagens, em momentos diferentes de suas vidas. Presos pelos nomes que carregam desde o nascimento, os Buendía sofrem de loucura e lucidez invejáveis. Fogem de uma em direção à outra a todo momento. Até que, no final, cem anos se passam. Condenados a nunca poderem ter uma chance de consertar suas vidas.

Impulsionado pelo falecimento do escritor colombiano, me perdi em dois dias de leitura, perdendo meu feriado de páscoa e abandonando qualquer coisa que chamei de vida até então. Enveredei-me pelas linhas como quem sobe numa árvore, dos mais baixos galhos ao céu. Numa escrita singular, Gabo (como era chamado pelos amigos) monta uma história sem começo ou fim. Ele relata uma fração do que acontece com as personagens, à sua própria maneira, como um cronista que relata suas aventuras.

Algo marcante é a relação dos nomes com os personagens. Cada um deles era preso ao que era sem nunca perceber isso. O narrador, consciente do passado, presente e futuro, apresenta, numa riqueza de adjetivos infinita, um leque de tantos sentimentos quanto é possível, mas sempre destinados ao irremediável. As dores e alegrias dos nascimentos, dos amadurecimentos – sejam como forem –, das paixões irremediáveis, dos casamentos turbulentos e das mortes passearam pelas vidas dos personagens, das mulheres promíscuas às mães de família.

Me senti vazio, sem coração, triste e feliz, tudo ao mesmo tempo, numa espiral de cores senis. A idade pesou em mim como em cada personagem. Eu vi seus corações e seus maiores medos. E senti a vida se esvair dos meus dedos a cada folha. No final, não sei o que senti. Senti-me bem, livre. Toda a solidão parecia como um sonho distante. É esse o poder de Gabriel García Márquez. É esse o tipo de feitiço que rendeu ao livro o prêmio Nobel de literatura em 1982.



Le Voyeur

Da janela do meu apartamento, consigo ver um bistrô. Ou, pelo menos, o lado de fora dele. As cortinas, quase sempre, estão fechadas. Quando não tenho mais o que fazer, observo o que acontece do lado de fora. Geralmente, são amantes. Calorosos, principalmente. Se abraçam e se beijam constantemente. Fazem disso um esporte. Alguns casais são mais frequentes que outros, mas todos são clientes fixos.

Uma vez por semana, independente do dia, alguns casais entram e saem. Alguns voltam. Outros não. A verdade é que o negócio não parece ir bem. Muitos não retornam. Mas os clientes fixos tem os maiores sorrisos que já vi.

Há algum tempo, eu tinha visto um casal chegar ao bistrô. Eles pareciam "compatíveis". Essa palavra me lembra rituais de cópula. Mas, sim, era o que eles pareciam. Os dois possuíam um tipo de beleza incomparável. A moça era "quase bonita demais para ser considerada verdadeiramente bela". Eles também decidiram se sentar do lado de fora. Ali, eles tiveram um outro tipo de intimidade. Foi além do físico. Eu quase podia sentir o "je ne sais quoi". Ela tocava nos braços dele, mexia no cabelo, sorria e mordia os lábios. Ele a olhava com emoção. Tímido, ele não gesticulava. Mas parecia que disso ela gostava.

Começaram a ir toda semana. E, lá, eu vi sua relação evoluir de um primeiro encontro para um quase noivado. Mas, de repente, e não tão de repente assim, eles começaram a parecer irritados com cada encontro. A cada semana que passava, eu podia ver que eles mal falavam. E seus olhos mal se encontravam. Então, passaram a diminuir a frequência assustadoramente. Foi aí que não apareceram mais. Por um bom tempo.

Outros iam e vinham. E eu os observava atentamente. Mas nenhum era como eles. Os casais, tão pálidos e sem graça, não me pareciam como grande coisa. Eles se olhavam, mas nenhum deles tinha tanta química quanto aquele casal. Me lembrava deles como se não tivessem ido embora há tanto. Mas acontece que alguns anos já haviam se passado.

Nessas paredes, vi minha vida não acontecer. Tudo o que devia ter sido posto em andamento não foi. Nada foi, na verdade. Perdi muito. Meus filhos cresceram e foram embora. Nem me lembro de seus nomes. Faz tanto tempo. E, ao mesmo tempo, parece que foi ontem.

Minha própria vida sempre me pareceu sem graça. Sem perceber, eu acabava ouvindo conversas demais, prestando atenção em detalhes demais. Por todo lugar, eu sempre conhecia uma história. E sempre considerei conhecer as pessoas como as palmas de minhas mãos. Eu sentia que as conhecia.

Mas o fato é que não conhecia. Eu não sabia nada além de seus nomes e alguns fatos engraçados sobre suas vidas. Eu, antes, dizia que se podia conhecer uma pessoa muito bem apenas por perguntar seu nome todo. Eu acreditava veementemente nisso. E ainda dizia que, se uma pessoa lhe dizia o nome todo, era porque não tinha tanto a escrever; tanto é que lhe confiava algo tão pessoal.

A verdade é que isso era mentira. Meus pensamentos me enganavam mais frequentemente do que eu podia declarar. E enganavam aqueles ao meu redor. Eu dizia “eu te amo”, mas não sentia nada. O fato é que eu não amava nem a mim mesmo. Eu amava os outros. E, deles, eu entendia.

Eu fazia espaço nos cantos da minha mente para adicionar fatos aleatórios e alheios. Muitas vezes, de pessoas que eu nem conhecia. Ainda não as conheço. Contudo, me lembro de muito. Dizia que tinha a memória ruim. Replicavam ainda que eu só tinha memória ruim para o que não me interessava. E era verdade.

Eu nunca me amei muito. Me olhava no espelho e ridiculamente me achava esquisito. Não fisicamente, mas via menos do que havia para ser visto. Eu não me entendia. Eu me achava um profundo conhecedor da psique humana e, ainda, me achava uma bela exceção. Eu não compreendia o porquê de ser assim. Eu só era. Via os outros e pensava que podia explicar tudo. Tentava sempre encontrar explicação pro que eu sentia.

Tantos anos depois, eu ainda observava atentamente o bistrô, mesmo que por costume. Nada havia mudado. Só, talvez, os rostos. Os garçons, mais velhos, de cabelos grisalhos e cheios de rugas, continuavam no mesmo lugar. Nenhum casal, porém, chegava perto daquele. Minha busca era incessante. Eu ainda queria vê-los mais uma vez.

Então, sem esperanças, eu me via sentado no sofá, ouvindo música e pensando na vida. Como seria fácil ir embora e abandonar tudo o que fiz e viver cada dia como se fosse o último. Afinal, eu não havia conquistado nada de forma permanente. Meus filhos não queriam me ver. Minha esposa não sabia mais meu nome. E eu já não sabia mais o motivo que havia me levado a viver em primeiro lugar.

Num dia qualquer, num momento como qualquer outro, estavam passando pela rua e se esbarraram. Eles, afinal. Olharam com um saudoso desdém para a cara um do outro. Deram uma olhada no bistrô e acabaram por sorrir. Se sentaram à mesa em que haviam se sentado por tanto tempo, tantos anos atrás.

Pela primeira vez em muito tempo, senti algo. Então, percebi o que devia fazer. Por tanto tempo, fiquei ali, sentado, vendo casais irem e virem, terem uma vida. Mas eu nunca me perguntei se era isso o que eu queria. Um romance, uma vida agitada, amigos, etc. Me levantei e desci. A curiosidade bateu. Fui ao bistrô e sentei numa mesa ao lado deles.

Como foi sua vida? Você foi feliz? O que aconteceu com ela que tão de repente você desapareceu?, ela perguntou com um grande sorriso no rosto. Felizmente, eu era treinado para saber disso. Consigo farejar as pessoas como qualquer bom cachorro.

Olha, quando a gente terminou, eu estava um fiasco. Tudo parecia que ia dar mal pra mim. Eu sentia como se o mundo estivesse contra mim. Perdi meu emprego, fui despejado, fiquei na rua da amargura. Mas, então, encontrei alguém que tomou conta de mim. De uma maneira que você nunca foi capaz, claro.

Como assim "quando a gente terminou"? Não foi um término. Você me abandonou. Cada vez mais, eu te encontrava fora de casa. Você não queria mais me ver. Você olhava pra mim com cada cara de nojo. Eu tinha que acabar com aquilo, lógico. Você não conseguia ser mais fiel a mim. Não sei se você tinha outras. Sei que eu não era mais a única em sua vida, era como uma irmã irritante com quem você é obrigado a viver.

Terminamos, sim. Eu não sabia o que pensar, naquela época. Eu era infantil, sim, mas eu não havia lhe dado qualquer motivo para término. Eu andava trabalhando demais, entendo, mas não vejo como isso pode ter afetado tanto nosso relacionamento. O que eu queria era poder te proporcionar uma vida mais digna, ou sei lá. Meu pai sempre me disse que o importante é viver bem.

É, o importante é viver bem, mas, acima de tudo, feliz. E isso nós não estávamos sendo. Você, sinceramente, não consegue olhar pra trás e ver tudo o que havia de errado naquela época? Nós nos víamos cada vez menos e até paramos de vir aqui. O local do nosso primeiro encontro. Lembra como nós éramos apaixonados? Nós tínhamos feito aquele pacto, se lembra?

Claro que me lembro. Me pego pensando nele tanto nos últimos anos. E ainda me pergunto como fui te deixar escapar. Nós havíamos prometido um para o outro que, enquanto estivéssemos juntos, nós vivenciaríamos cada lembrança como se fosse uma primeira. Principalmente a de visitar o bistrô sempre. Mas não deu certo. Esquecemos disso como se não fosse nada. Como se não fosse uma promessa de amor. Como se não fosse... uma prova do quanto eu te amava. E ainda amo.

Ama? Ama mesmo? Ama o suficiente para deixar tudo para trás e me seguir numa viagem de volta ao mundo? O que você diria, então? Você sempre foi tão preso ao chão e eu não te culpo. É a maneira como você foi criado. Eu tenho tantos sonhos, tantas possibilidades. E me sentiria tão feliz de te carregar para onde quer que eu vá...

Olha, em condições normais, eu recusaria. Eu nunca tive vontade de sair daqui. É o meu lugar. É aonde pertenço. Eu não sei se me sentiria confortável em jamais fugir da minha vida. É onde ela acontece, afinal. Toda a minha família, meus amigos, meu trabalho, tudo.

Então, já que você não quer ir, eu vou... ela o interrompeu. Eles se olhavam com olhares de sentimentos mistos. Tanto desejo. Tanta recusa. Tanta coragem. Mas eles se perderam nesses olhares quando ele a interrompeu e continuou.

Eu quero, sim, ir com você, ele disse, fazendo-a irromper em lágrimas. Seus olhos brilharam com a possibilidade do grande futuro que se erguia. Só que tem um problema. Eu estou morrendo. Não me leve a mal. Eu estava tentando viver até meu último suspiro em paz, sem maiores emoções. Afinal, depois que você me escapou, nada pareceu tão cinza quanto minha vida. Estou morrendo, mas me sinto bem com isso. Não tem tratamento para a minha doença. Só você. Você é a única pessoa que pode me tirar desse tormento. Todas essas palavras fizeram-na entrar em choque. O sorriso que se elevava em seus lábios pendia por um fio. Então, caiu num desgosto sem fim. Sorria. Não é motivo de tristeza. Eu estou bem com isso.

Ficamos separados por tantos anos, eu te chamo para dar a volta ao mundo e você me solta uma bomba dessas?, ela disse em um tom quase rude. Mas sorria novamente. Aparentemente, ela sabia lidar com a partida de pessoas queridas. Ou, pelo menos, foi o que deu a entender. Eu quero você e quero você agora. Se levantaram e se beijaram apaixonadamente, como fizeram há tanto tempo. Até eu consegui sentir o calor que eles emanavam.

Depois disso, eu nunca mais os vi no bistrô, e eu olhava pela janela cada vez menos. Conseguia me entreter com meus filhos, netos e até com a televisão. Mas o bistrô me parecia vazio e sem graça. Um dia, porém, indo contra todos os meus costumes e superstições, decidi ver o jornal. Algo me chamava para ele. Eu não sabia bem o quê. Aí, tive a confirmação. "Marido de escritora morre de câncer em volta ao mundo”. E, quando fui ver, eram eles. Partiu, afinal. De um jeito ou de outro, era inevitável. Eles sabiam que iria acontecer. Foi o que ela disse, também, em reportagem.

O quão prontos podemos estar para a morte? Acontece muito de repente. Sabíamos que aconteceria em breve, mas foi tudo tão rápido. Sinto que não aproveitamos nada. Eu queria entender como acontece a ilusão da imortalidade na juventude. Somos tão felizes enquanto pensamos ser eternos. Sabemos que vamos morrer, só não sentimos isso na pele. É coisa do futuro. Deixe que meu eu futuro cuide disso. E vivemos sem nunca saber como é nos sentir frágeis. Até que sentimos uma última vez. Para nunca mais.

Algum tempo depois, o bistrô foi fechado pela vigilância sanitária. Aparentemente, eles colocavam cogumelos em tudo. O que não é ilegal, normalmente. Mas eles usavam alguns alucinógenos. Mas em tão pouca dose que o máximo que poderiam fazer seria inspirar um poeta a escrever da paixão como quem come algodão doce: com gosto, mas com a culpa eterna de engordar; antitético e sintético. Provavelmente era isso que tanto chamava os apaixonados. Pessoas no limite da razão. Pessoas que precisavam de um pouquinho mais para se deixar levar. Pessoas mentalmente debilitadas.

Coração de tinta, de Cornelia Funke

*Esta resenha pode conter spoilers sobre o enredo da série "Mundo de Tinta".


Cornelia Funke
Edição: 1 (456 páginas)
Editora: Cia. das Letras
ISBN: 9788535907728
Ano: 2006
Encontre na Saraiva.

Sinopse:
Há muito tempo Mo decidiu nunca mais ler um livro em voz alta. Sua filha Meggie é uma devoradora de histórias, mas apesar da insistência não consegue fazer com que o pai leia para ela na cama. Meggie jamais entendeu o motivo dessa recusa, até que um excêntrico visitante finalmente vem revelar o segredo que explica a proibição. Quando Meggie ainda era um bebê, a língua encantada de Mo trouxe à vida alguns personagens de um livro chamado 'Coração de Tinta'. Um deles é Capricórnio, vilão cruel e sem misericórdia, que não fez questão de voltar para dentro da história de onde tinha vindo e preferiu instalar-se numa aldeia abandonada. Desse lugar funesto, comanda uma gangue de brutamontes que espalham o terror pela região, praticando roubos e assassinatos. Capricórnio quer usar os poderes de Mo para trazer de Coração de tinta um ser ainda mais terrível e sanguinário que ele próprio. Quando seus capangas finalmente sequestram Mo, Meggie terá de enfrentar essas criaturas bizarras e sofridas, vindas de um mundo completamente diferente do seu.

Em 2009, foi lançada a versão cinematográfica da obra. Enquanto sua contraparte literária rendeu excelentes críticas e coisas do gênero, o filme gerou dúvidas sobre como um livro tão bom teria originado um filme tão ruim. Pessoalmente, não acredito nisso. Adaptação não pode ser considerada uma transformação. Todavia, deixou a desejar. Por mais que seja um infanto-juvenil, custa fazer um filme um pouco mais longo? Desse jeito, talvez, a obra fosse mais bem desenvolvida.

Mo, o primeiro personagem introduzido na história, foi interpretado por Brendan Fraser. Um ator de poucos dramas na carreira concentrada em comédias românticas ou familiares. Não fez jus ao personagem literário – um homem que faria tudo por sua filha, mas não tão heroico quanto o ator americano. O único dessa nacionalidade no elenco, pra falar a verdade.

Meggie, sua filha, foi interpretada por Eliza Bennet. Uma excelente interpretação. A personagem é cheia de vida e coragem. Se arrisca por seus pais e amigos sem pestanejar. Uma leitora voraz, a personagem encontra em Elinor, a tia que criou sua mãe, características parecidas com as suas.  Esta tia, por sua vez, interpretada por Helen Mirren, no livro é mostrada como uma senhora idosa que liga pouco ou nada para sua aparência, sendo que, no filme, ela é exatamente o contrário – é "brega e chique". Uma personagem que é de um jeito e se torna exatamente sua antítese na suposta "adaptação".

E tem Dedo Empoeirado, o anti-herói. Só pensa em uma coisa: voltar pra casa. Para sua esposa, Roxanne. Ele acaba traindo Mo, revelando sua localização a Capricórnio, o que revela sua moral duvidosa. Ele faria qualquer coisa para reaver sua antiga vida. Foi interpretado por Paul Bettany. Uma atuação fantástica. Todos os percalços da sua relação conturbada com Mo foram bastante dramáticos. Perderam suas esposas na mesma noite. Se veem como amigos, mas Mo tem medo de que mais algo saia do livro, ao invés de só levar Dedo Empoeirado e trazer Resa.

Curiosamente, no livro, Coração de Tinta havia se tornado um livro raro. Descobre-se que isso é obra de Capricórnio. Ele procurou e queimou praticamente todos os exemplares do livro. Então Mo vai procurar seu escritor, Fenoglio, com esperanças de que ele ainda possua algum exemplar. Arrogante e megalomaníaco, interpretado por Jim Broadbent. "Escritor com complexo de Deus", se sente como pai de Capricórnio, pedindo desculpas por todo o mal que foi causado. Arrependido, tenta ajudar nossos heróis a se salvarem.

O vilão principal, trazido em primeira mão do livro, porcamente interpretado por Andy Serkis, se tornou ainda mais cruel desde que veio ao mundo real. No livro, ele era um líder de um grupo de incendiários. No mundo real, ascendeu a líder de uma organização grande e com requinte de crueldade. No filme, ele ficou quase cômico. Não vejo vantagem nessa escolha.

Na história original, apesar de manterem residência fixa, Mo e Meggie viajam por toda a Europa em natureza do emprego de Mo, um "doutor de livros". Aonde chamam, ele vai. No filme, essa natureza errante é deixada de lado. Desse jeito, eles rapidamente procuram abrigo na casa de Elinor, a tia rica e colecionadora de livros de Resa, sem muitas explicações. O fato é que eles estavam fugindo de Capricórnio.

Fora isso, tudo o mais permanece muito parecido/igual. Invariavelmente, é um dos meus livros favoritos. O melhor da série Mundo de Tinta. Os outros livros são até desprezíveis, em termos de continuidade. Cornelia Funke tem um problema sério com relação a isso. Ela tem uma fórmula imutável. O primeiro livro começa com uma aventura épica sem precedentes. O segundo livro tem uma expansão de mundo que envolve, geralmente, uma guerra. O terceiro, assim, é a conclusão. A guerra é vencida com todo tipo de reviravoltas. Isso será visto melhor na série Reckless. Esperem.

Nota d’A Editora: Eu sou completamente apaixonada por Cornelia Funke. Está além da minha compreensão como alguém pode não gostar do segundo e do terceiro livro da trilogia Mundo de Tinta. Ao contrário do que nosso colunista pensa, eu acho que, nos segundos livros de suas séries, Cornelia tende a expandir maravilhosamente um universo do qual só apresenta uma pequena fração no primeiro livro. Não significa que os livros posteriores sejam melhores, mas são uma proposta totalmente diferente. Pra quem não sabe, nos segundo e terceiro volumes da trilogia, os protagonistas de Mundo de Tinta vão eles próprios para dentro do livro do qual a história fala. E isso é incrível! A autora tem a chance de explorar um mundo criado inteiramente por ela, com lugares e personagens novos, tão envolventes quanto os anteriores. Cornelia é uma mestre da fantasia e sabe lidar de forma primorosa com a narrativa fantástica, a qual ela explora muito bem em Sangue de Tinta, (segundo livro), Morte de Tinta (terceiro livro) e na trilogia Reckless. Essa última, por sinal, é a maior prova de que as trilogias da autora são, de fato, trilogias. Não é um primeiro livro escrito para ser independente e ter continuações “desprezíveis”, mas sim uma história ricamente construída em três partes. Um bom exemplo disso é o fato do primeiro volume de Reckless, A Maldição da Pedra, não ter me cativado tanto no início, mas o segundo, Sombras Vivas, ter sido genial. Dá pra perceber que é intencional. O primeiro livro apresenta alguns personagens de forma mais superficial, te deixa ver os defeitos e falhas deles. Já o segundo, além de enriquecer o mundo através do espelho criado pela autora, se aprofunda nos personagens, fazendo com que nós os amemos imensamente. Outro ponto no qual eu não sei se posso concordar com o Pedro é a escolha de Brendan Fraser. Não posso falar por mim, porque não assisti ao filme – ouvi falar que não era muito fiel ao livro e nem considerei arriscar ter um dos meus livros preferidos arruinados. Mas uma coisa não dá pra ignorar: nos agradecimentos do segundo ou terceiro livro (não me recordo exatamente qual agora) de Mundo de Tinta, Cornelia agradece a Brendan Fraser por ser exatamente o Mo que ela queria. Ela não faz comentário algum sobre nenhum outro ator do filme, só ele. Se a opinião da autora não serve de confirmação para a boa escolha dele para o papel, não sei o que serve.


Desventuras em Série, de Lemony Snicket

   Se você está procurando uma história feliz, sobre pessoas felizes, que fazem coisas felizes e tem finais felizes, você está com o livro errado. A advertência é clara.

   Imagine que seus pais morram num terrível incêndio, que destrói sua casa, com seu laboratório, sua biblioteca e sua cozinha. Então, você é mandado com seus irmãos para morar com um terrível familiar tão distante que você nem sabia que existia, o Conde Olaf. Te faz de escravo, obrigando-lhe a limpar a casa, fazer comida e servir de mordomo. E, pra piorar, ele só quer o seu dinheiro. Bom, foi isso que aconteceu aos irmãos Baudelaire (pronuncia-se "Bodler"), no primeiro livro; são três: Violet, Klaus e Sunny (do mais velho ao mais novo), cada um com uma habilidade "especial".

Os irmãos Baudelaire (filme à esquerda e livro à direita)


   Violet tem catorze anos no começo da série. É uma jovem inventora com grande conhecimento das ciências naturais e cheia de aspirações. Quando amarra os cabelos com sua fita, para que não caiam nos olhos, é porque está pensando em uma nova criação. Possui um senso de dever para com sua falecida mãe, a quem prometeu cuidar dos dois irmãos. No filme, é interpretada pela australiana Emily Browning. Sua interpretação mostrou todo o cuidado da irmã mais velha, com seu amor e dedicação de preservar sua família e seu legado. Gostei da sensatez com que ela leva sua vida e responsabilidades. Apesar de passar por maus-bocados, ela não se deixa levar pelo "lado negro da força".

   Klaus, o irmão do meio, tem doze anos e é um grande leitor. Existem dois tipos de conhecimento, o vertical e o horizontal. O primeiro, é quando você se aprofunda em uma área específica, como um médico que faz especialização e, depois, mestrado e doutorado. O segundo, é quando você possui conhecimento, básico ou médio, nas mais variadas áreas (e, às vezes, opostas) de conhecimento, como, por exemplo, física e literatura medieval do século XIV. Klaus possui este último. No filme, foi interpretado por Liam Aiken. A interpretação foi, no mínimo, fraca. Tendo em vista que, no livro, é um garoto extremamente conceitual que, por sinal, usa óculos; um profundo conhecedor do vernáculo (característica com que me identifiquei bastante). Isso, provavelmente, foi o que me fez elegê-lo como meu personagem favorito.

   Sunny, a mais jovem membro do clã "Bodler" tem um talento um tanto inusitado. Ela gosta de morder. Começa a história como um bebê de temperamento forte, com um vocabulário limitado e de difícil entendimento, que é traduzido pelo escritor conforme a história passa. Não há muito que possa ser dito sobre ela. Não me identifico com seu desejo de morder coisas. Diferentemente dela, meu maior "ídolo" não é um tubarão.

Conde Olaf

   O primeiro tutor, declarado arqui-inimigo das crianças e da higiene, é o conde Olaf, um ator decadente que faz de tudo para ficar com a herança deixada por seus pais. É, aparentemente, o chefe de uma companhia de teatro, tendo em vista que seus "companheiros", se aproveitam de sua grande casa, ajudando-o em seus terríveis planos. No filme, foi interpretado por Jim Carrey, que deu uma cara um tanto mais cômica ao vilão, perdendo um pouco de seu... terror. Sua maldade e ganância só seria superada por alguns homens da história mundial, como Judas, Brutus ou Caim. 

   Um fato desagradável, porém interessante visto aos olhos de uma criança, é a aceitação dos órfãos. "A gente aceita o amor que acha que merece", já dizia o Charlie n'As vantagens de ser invisível. Todo o mal que lhes é oferecido, não só pelo Conde, mas também por seus asseclas. Isso dá uma característica pouco atraente, tendo em vista que sempre há uma solução. A tragédia acontece, mas eles sempre conseguem dar a volta por cima.

   A série possui, ao todo, treze livros que narram as (des)venturas dos jovens que "passam" de tutor a tutor, um mais inusitado que o outro. Pessoas estranhas, com personalidades estranhas, hábitos estranhos e gostos estranhos. Conforme o Conde os persegue, sempre disfarçado, podemos notar um fato curioso: as crianças são as únicas que sempre conseguem ver "através" de suas fantasias. Pode ser reconhecido facilmente por sua monocelha e pela tatuagem de olho, no tornozelo esquerdo. Ambos, quando escondidos, tornam o Conde irreconhecível por outros adultos. Com o desenrolar da história, um grande mistério se apresenta acerca do incêndio que matou os pais dos jovens Baudelaire. Mistério esse tão instigante que envolve até mesmo o escritor, Lemony Snicket (pseudônimo de Daniel Handler), que age como narrador personagem, que vai revelando, pouco a pouco, sua história como, por exemplo: sua amada Beatrice (nota: The Beatrice Letters).

   Pouco a pouco, vamos conhecendo mais sobre este personagem sombrio, que possui uma história intimamente ligada àquela que os Baudelaire fazem parte. Possui grande experiência de vida, ao passo que seu conhecimento engloba diversas áreas; assim, Snicket fala sobre diversos temas, como, no terceiro livro, onde ele diz que "ter medo de que haja um monstro debaixo da cama é perfeitamente racional, porque de fato um monstro pode ir parar um dia debaixo da sua cama e estar pronto para devorá-lo, mas ter medo de corretores é um medo irracional". No cinema, este foi interpretado por Jude Law, que aparecia apenas como uma voz, sem muito além.

   O filme, lançado em 2004, é a adaptação dos três primeiros livros: Mau Começo, A Sala dos Répteis e O Lago das Sanguessugas. Meu professor de matemática sempre diz que "a ordem dos fatores não altera o produto". Se você acreditar nisso, pode ter certeza que vai gostar da adaptação; apesar de apresentar alguns fatos em ordem um tanto esquisita (?), é fiel o bastante.

   A leitura é sufocante. As tragédias cortam-me o coração. Já dizia a lei de Murphy: " se algo tiver que piorar, o será". Infelizmente, a vida caminha a esses passos. Os personagens são tri-loucos (essa palavra existe?). Criaturas embebidas de maldade, criadas para atormentar a vida dos jovens "Bodler". Eu não gostaria de ter quaisquer um deles em minha vida. Prefiro que ela seja sem graça e feliz. Apesar dos pesares, recomendo a série.