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O Espadachim de Carvão, de Affonso Solano


Affonso Solano
I.S.B.N.: 9788577343348
Edição: 1 / 2013
Fantasy - Casa da Palavra
256 páginas
Encontre na Saraiva.

Sinopse:
Filho de um dos quatro deuses de Kurgala, Adapak vive com o pai em sua ilha sagrada, afastada e adorada pelas diferentes espécies do mundo. Lá, o jovem de pele absolutamente negra e olhos brancos cresceu com todo o conhecimento divino a seu dispor, mas consciente de que nunca poderia deixar sua morada.
Ao completar dezenove ciclos, no entanto, isso muda.
Testemunhando a ilha ser invadida por um misterioso grupo de assassinos, Adapak se vê forçado a fugir pela vida e se expor aos olhos do mundo pela primeira vez, aplicando seus conhecimentos e uma exótica técnica de combate na busca pela identidade daqueles que desejam a morte dos Deuses de Kurgala.

Nos últimos tempos, com todo o hype em torno de obras grandiosas de fantasia, como a de George R. R. Martin, tudo o que for produzido para o gênero será cruelmente comparado aos cânones das aventuras épicas em universos fantásticos. O gênero da fantasia tem crescido muito, ganhado subgêneros e influências cada vez mais diversos, uma vez que os autores têm tentado inovar mais e mais na cena cada vez mais acirrada.

Mesmo com a predominância dos estrangeiros, a cena do fantástico brasileiro tem crescido bastante. Sucessos de vendas como A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr, ou Dragões de Éter, de Raphael Draccon, e até mesmo, antes deles, os livros de André Vianco mostram que existe sim potencial em nossos autores e que seu imaginário pode disputar pau a pau com os estrangeiros. O Espadachim de Carvão é um fruto dessa nova fornada, que superou todas as minhas expectativas e foi uma surpresa muito boa.

O livro, do brasileiro Affonso Solano, conta a história de Adapak, o guerreiro que nomeia o livro e tem tal alcunha porque sua pele é tal qual o carvão, preta como a noite. O livro se passa num universo original, que vai sendo descrito sutilmente, ora discorrendo sobre a mitologia por trás da criação de Kurgala – o mundo –, ora nas descrições divertidas das várias espécies que o habitam. Na mitologia da história, o mundo um dia fora regido por quatro deuses, que não mais estão presentes e o teriam abandonado. Adapak é filho de um deles. Foi criado e educado longe dos olhos do mundo e, quando a história começa e ele é obrigado a correr de um lado ao outro e lidar com todos os tipos de pessoa, ele tem que aprender a ultrapassar toda a ingenuidade que tem.

Embora ingênuo, Adapak é um herói bastante badass. Solano descreve muito bem as cenas de ação e criou para o personagem uma espécie de arte de esgrimir, chamada de Círculos Thibaul. Toda vez que Adapak entra em conflito, visualiza os Círculos e consegue praticamente prever os movimentos de seus adversários, tornando-se um espadachim implacável. O UniverSolano é cheio de particularidades, e é apresentado e desvendado sem pompa e exagero, sem descrições longas e cansativas. O autor consegue manter um ritmo constante, que prende a atenção e exibe a vastidão de sua criação ao mesmo tempo em que conduz uma aventura contagiante.

O livro foi uma surpresa considerável. Uma leitura que comecei esperando um romance de fantasia lugar-comum, e acabei tendo uma história divertidíssima, com referências e influências sutis de ficção científica, cinema e videogames. Um livro que começa ok, se desenvolve bem, e acaba deixando um gosto enorme de quero mais. A história que começa aqui se conclui aqui, mas fica uma brecha aberta para uma continuação e eu realmente espero que ela aconteça e que tenha o dobro do tamanho do primeiro livro, porque este foi muito divertido e mal vejo a hora de repetir a dose e conhecer mais de Kurgala.


A Torre Negra - O Pistoleiro (Vol. I), de Stephen King



Stephen King
Edição: 1
Editora: Suma de Letras
ISBN: 9788581050751
Ano: 2012
Páginas: 221
Encontre na Cultura.

Sinopse:

Condenado a vagar por um mundo pós-apocalíptico no encalço de sua nêmesis, o misterioso Homem de Preto, Roland, encontra personagens cujo destino está ligado ao seu com um papel crucial em sua caçada. Jake Chambers é um estranho menino que foi transportado para o Mundo-Médio após morrer tragicamente na Nova York de 1977. Alice, uma fascinante mulher da desolada cidade de Tull. O destino - ou ka - reserva a morte para ambos, e Roland conta apenas com suas habilidades como pistoleiro para derrotar o inimigo. Essa jornada através do Mundo Médio o leva em direção à Torre Negra, que a tudo observa no horizonte distante.

Em 1967, um jovem americano, do alto da febre da idade e exalando a confiança da juventude, havia lido e se encantado com o trabalho de J. R. R. Tolkien em O Senhor dos Anéis. Foi aí que o jovem Stevie, inspirado, começou a cozinhar em sua cabeça uma história que levaria mais de trinta anos para ser concluída. A história que, segundo ele mesmo, ele escrevia não porque queria, mas porque precisava contar.

Na introdução de O Pistoleiro, Stephen King nos conta sobre a juventude e sobre como nasceu em sua imaginação poderosa e genial fértil a história d’A Torre Negra, que lhe custou muitos anos para ser contada e quase ficou sem final quando, em 1999, o autor sofreu um grave acidente. King discorre na introdução, e também no prefácio seguinte a ela, a respeito disso. Conta, em alguns momentos, das cartas que recebeu de alguns leitores que, à beira da morte, o pediam para revelar o final da história, que até então só havia sido publicada – e escrita – até o quarto volume. King aprontou e terminou os três volumes finais da história com pressa e, cinco anos depois do acidente, o último e aguardado volume foi lançado.

A Torre Negra é, segundo seu próprio autor, a obra máxima de Stephen King. Seu trabalho mais importante, embora não o mais conhecido. O autor confessa que, se em uma palestra lotada perguntar quantos dos presentes já leram algum de seus trabalhos e em seguida perguntar quantos destes leram A Torre Negra, menos da metade dos leitores responderia que sim. Mas King não observa isso com pesar ou reclamando, e é ciente de que quem leu A Torre foi arrebatado pela história que se tornou tão importante para seus fãs quanto para seu criador.

O primeiro livro nos apresenta Roland Deschain, O Pistoleiro, e sua busca pela Torre Negra, que se acredita ser o centro de seu mundo – e de todos os mundos. Roland é o último pistoleiro de sua ordem, e seu destino é atravessar seu mundo e encontrar a Torre Negra. O mundo de Roland é um grande cenário pós-apocalíptico e desértico, onde peste, fome, guerra e doença devastaram tudo. King tem como fontes de inspiração maior para o universo criado a Terra Média de Tolkien e o poema épico de Richard Browning, “Childe Roland To The Dark Tower Came”, mas a história não se resume a esta salada de influências e inspirações. É original e surpreendentemente verossímil, com todos os elementos unidos num só.

Quando começamos a história, Roland está no encalço de um homem, o Homem de Preto, cujo nome mais tarde nos é revelado: Walter. Ele é um dos personagens mais importantes e enigmáticos de toda a história, aparecendo em momentos arbitrados com maestria por King. A memorável frase inicial do livro – e de toda a jornada iniciada nele – é um mantra para os fãs e fala dessa busca inicial de Roland: “O Homem de Preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás.” ¹. No decorrer da saga, conhecemos três faces de Roland. O Roland de antes, o Roland de agora e o Roland de depois. O Roland no presente deste primeiro livro é o Roland de agora, apresentado como um homem que já não está mais na flor da idade, O Pistoleiro, cheio de cicatrizes de batalha, amigos e um amor perdido. Segue em busca d’A Torre, custe isso o que lhe custar. O Roland de antes nós conhecemos só nos livros seguintes, quando nos é contada a sua história passada, antes dos eventos de O Pistoleiro. E o Roland de depois é o que o personagem vai se tornando no desenrolar da história, conforme sua jornada se desenvolve e se aproxima do fim.

A Torre Negra é o que Stephen King tem de melhor, tudo numa única história. Misturando o terror que é sua marca registrada com fantasia, referências a cultura pop, lendas arturianas, faroeste e ficção científica, King encontrou sua melhor forma nesta história. É uma impressão pessoal minha e de muitos outros leitores, essa de que não é possível ver a vida da mesma forma depois de ler A Torre Negra. O que Stephen King desenvolveu é uma obra prima da ficção. Segundo ele, os sete livros são partes de um único romance, este, então, um dos maiores, se não o maior, romance popular de todos os tempos. Apresenta na história o Ka, algo como o Destino, mas muito mais levado a sério, poderoso e cíclico. Essa ideia, que tem importância mor na trama, foi também a que mais me marcou, e as palavras do Mestre serão sempre um lema onde o Ka é como uma roda que move todas as coisas e que gira sempre para o mesmo lugar.

A Torre Negra é uma história que levou uma vida para ser contada e que, mesmo após ser concluída, ainda tinha e tem muito a ser dito. Após o lançamento do último volume, King ainda escreveu um outro livro, que amarra algumas pontas soltas e preenche a lacuna entre o quarto e o quinto livro. Uma série em quadrinhos que conta a trajetória de Roland em sua juventude, tornando-se o homem que conhecemos em O Pistoleiro, foi desenvolvida pela Marvel Comics e publicada em cinco arcos entre 2007 e 2009. Em diversos de seus livros, Stephen King esconde easter eggs, referências algumas vezes sutis e outras vezes que se relacionam diretamente ao universo de Roland. E ainda assim, com tanto já explorado, deve haver mais histórias sobre o pistoleiro escondidas no fundo da cabeça de Stephen King. Acredito que o Ka de Stephen King seja este universo, e ele sempre vai girar em sua direção e voltar a ele. Direta ou indiretamente. E será sempre um prazer revisitar este mundo e reencontrar o Pistoleiro em suas andanças.

¹ Editora Objetiva, 2004. Tradução de Mário Molina.  Do original: “The man in black fled across the desert, and the gunslinger followed.”

The Angel Experiment, de James Patterson


Ultimamente, tenho evitado ler YAs. Isso se relaciona seriamente com aquela minha teoria da falta de criatividade no cenário literário de YAs, que foi tema de um outro texto meu. ~link do post~  Então me propus que evitaria ler YAs por algum tempo, exceto por um que eu já vinha desejando por meses. O livro em questão era The Angel Experiment, o primeiro da série Maximum Ride, de James Patterson.
O que me despertou o interesse no livro foi a premissa: crianças que haviam passado por experiências genéticas e desenvolveram asas. Só isso me bastou para imaginar uma porrada de tramas possíveis. Particularmente, adoro ficção científica e decidi dar uma chance ao livro. No final do ano passado, lembro de ter visto uma notícia falando sobre os lançamentos nacionais mais esperados de 2013, e entre eles estava Maximum Ride, que teve os direitos de publicação comprados pela editora Novo Conceito, mas não tem uma data para o lançamento do livro.
Como qualquer outro leitor, eu já tinha cruzado com livros de James Patterson por aí. O cara é desses escritores de suspense e livros policiais que parecem lançar um livro novo a cada mês, e não sei se isso é uma coisa boa. Há boatos na internet de que ele use ghost writers – isso justificaria o monte de livros – e, se for verdade, é realmente vergonhoso. Seja como for, só soube desse tipo de boato depois de terminar de ler o primeiro livro de Maximum Ride.

A capa da minha edição. 


Corri atrás do livro com uma ansiedade incomum. Já fazia algum tempo que eu não ficava com tanta vontade de ler um livro. A falta de uma data para o lançamento da tradução me deixou ainda mais ansioso e decidi não esperar por ela. Numa livraria pequena aqui perto, onde eu menos esperava, encontrei o livro e o levei para casa sem pensar duas vezes. Quando comecei a ler, percebi que eu havia me enganado ligeiramente a respeito do que eu achava da série.
Primeiro, eu achava que Maximum Ride era o nome de algum projeto, ou aparelho científico, ou algo relacionado à história da série. Eu li as sinopses e via um personagem chamado Max. Quando estava, de fato, lendo o livro, descobri que Maximum Ride é o nome desse personagem e que ele é uma menina. Quem diabos se chama Maximum Ride? James Patterson poderia pensar em um nome mais legal para a coitada, né? Mas vamos lá. Max é a mais velha de um grupo de crianças que vivem sozinhas em uma escondida montanha. Eles são fugitivos de uma espécie de organização de pesquisa científica a que se referem como The School – A Escola.
Essa tal organização, que criou as crianças aladas, realiza testes nelas. Injetam substâncias nocivas e venenos em seus corpos só para ver como eles reagem a elas, os fazem passar por desafios físicos para obterem um gole sequer d’água. A Escola também criou uma segunda “raça” de mutantes, homens na maioria das vezes, que desenvolveram grande força física, mas que são capazes de se transmutarem em meio-lobos com apetite pelos alados. Essa segunda leva de mutantes foi mais aperfeiçoada do que a anterior, porque um deles, ao quarto ano de vida, já estava com um corpo adulto completamente desenvolvido. Esses outros mutantes, que Max e os amigos chamam de Erasers, os caçam a mando da Escola.
A história não é nenhuma narrativa excepcional. A trama se desenvolve a partir do momento em que a casa das crianças fugitivas é atacada por Erasers e eles conseguem capturar a mais nova deles, Angel, de seis anos de idade. A idade nesse livro é um problema. Max e Fang são os mais velhos, ambos com 14 anos, mas, em muitos momentos, eles agem como se fossem bem mais velhos. Gasman e Nudge também agem como se fossem bem mais velhos do que sua verdadeira idade. Iggy é o único que parece ter a mentalidade correta no grupo. Não me lembro de sua idade ser citada no livro, mas, segundo a Maximum Ride Wiki, ele teria 14 anos. Iggy é um dos meus membros favoritos do bando. Ficou cego quando a Escola estava fazendo testes para melhorar a visão dos espécimes. Ele e Nudge são os meus favoritos. Nudge é uma menina de onze anos que não para de falar em momento algum e que é engraçada em algumas situações da história.
No mesmo padrão de cenas de ação acontecendo em sequência umas às outras de Percy Jackson, o livro se desenvolve quando o Bando decide voltar à Escola, de onde eram felizes por terem escapado um dia, para resgatar Angel. A sede da Escola fica do outro lado do país, e é claro que eles fazem esse percurso voando. Embora o autor justifique que eles voem alto, acima das nuvens, achei difícil engolir que ninguém notasse gente diferenciada voando por aí.
Mais para o final do livro, temos ótimas cenas de ação. Uma situação conflitante acontece com Max, desafiando seu caráter como heroína da história. Gostei das lutas finais. Há uma ideia muito repetida mais para o fim do livro que parece um grande clichê dos anos 80-90, mas que me deixou curioso sobre seu real significado. Ser mais claro poderia revelar um spoiler. Se você gosta de YAs e está procurando algo para entreter a cabeça, para se divertir e arejar as ideias, eu lhe indico Maximum Ride. É um livro do qual eu esperava muito e que não é realmente grandioso, mas que, ao mesmo tempo, não me decepcionou. Continuo acreditando na premissa. Ao fim, entendi melhor o título. Comecei o livro imaginando que o tal “Angel Experiment” fosse o nome do procedimento pelo qual as crianças passaram para desenvolver asas, o que as deixariam com a aparência semelhante à de anjos, mas é mais plausível que o nome se refira às experiências pelas quais Angel passa na Escola. Essas experiências, aliás, a deixam um tanto quanto creepy.
No fim da edição, há alguns extras: postagens do blog de Fang e Nudge, sobre uma investigação que aconteceria entre o primeiro e o segundo livro; um preview de School’s out forever, o segundo livro da série; um pequeno preview de Wizard and Witch, publicado recentemente no Brasil como Bruxos e Bruxas.


As crônicas marcianas, de Ray Bradbury

Não havia uma boa imagem da capa, então tirei uma foto.    
         
           Depois de muita enrolação – vinda de uma ressaca literária bem forte –, concluí uma leitura que apareceu por acaso na minha lista. Há tempos que eu ouço falar muito sobre Ray Bradbury – infelizmente falecido em 06/06/2012 aos 91 – e vejo sua influência em autores que admiro. Já tinha vontade de ler algo do autor, quando, em um dos meus passeios pela biblioteca de minha escola, encontrei um exemplar de As crônicas marcianas novinho! Nunca havia sido lido. Sem pensar duas vezes, levei essa belezinha pra casa.
            Logo na capa, o livro já começou a me chamar atenção. A edição conta com a apresentação de ninguém mais, ninguém menos, que Jorge Luis Borges, do qual não li nada ainda – não por falta de interesse –, mas respeito por ouvir tantos elogios sobre. A edição da Editora Globo é impecável – fonte de tamanho agradável, memorável apresentação de Borges, tradução competente (principalmente em trechos de poemas contidos nos contos, que não são traduzidos, mas têm notas de rodapé, preservando a musicalidade). Na quarta capa, há uma foto de capa inteira do autor, algo que aprecio muito nos livros.
            As crônicas marcianas são formadas por 26 contos que foram originalmente publicados em revistas de pulp fiction e posteriormente reunidos pelo autor. Os contos podem ser lidos separados, mas juntos, e na ordem correta, compõem uma novela da conquista de Marte pelos homens da Terra, uma espécie de diário de viagens que começa em 1999 e termina em 2026. O primeiro conto nos mostra dois marcianos, o Sr. E a Sra. K, e seu cotidiano em sua casa de cristal. Vemos por seus olhos a chegada da Primeira Expedição.
            Bradbury é um romântico incorrigível e, como defensor dos valores humanistas, desconfia muito do progresso e de onde podemos acabar chegando em seu nome. Como outros autores do gênero, ele também teme que o avanço científico nos leve à catástrofe. Citando a introdução:

 “Bradbury coloca o dedo nas principais feridas da humanidade. O imperialismo, que impõe seus valores e subestima a inteligência e a cultura de outros povos. O racismo, que divide os homens em categorias. O descaso pelo meio ambiente, que leva os habitantes da Terra ao desespero. A censura, que busca reprovar tudo aquilo que não soa correto para o império dominante.”

            Pessoalmente, gostei muito mais dos marcianos de Bradbury do que de muitos dos alienígenas da ficção de prosa e dos quadrinhos. Eles são mais avançados, não tecnologicamente, mas culturalmente. Eles uniram ciência, filosofia e religião em uma só. Apresentam-se ao homem em alguns dos tempos, sempre se comunicando com este através da telepatia. Alguns dos contos em que eles fazem contato com os terráqueos são os mais assustadores do livro.
            Não gosto muito da inconstância dos livros de contos. Uns são mais arrastados, os outros, mais corridos, e sempre há um do qual gostamos mais que do outro. A obra de Bradbury segue um ritmo constante, só o senti desacelerar em ...E a Lua continua brilhando, e isso não é ruim, porque foi um dos contos que mais me agradaram durante a leitura. Nele, Spender, um dos astronautas que aterrissam em Marte, declama um poema de Lord Byron, do qual foi retirado o título do conto. Desde o início, Spender se dá conta da barbárie que os homens representam para o belo Planeta Vermelho e critica as ações deles. Ele ouve da música de Marte, estuda de sua Filosofia e fica maravilhado com a sua arquitetura de cristal. Marte, aqui, é retratado perfeito, em contrapartida com a nossa Terra ordinária e confusa.
            Chegando ao fim do livro, o conto Os longos anos me agradou muito. Ligeiramente cômico, conta a história de um dos últimos homens em Marte – quando todos os outros retornaram à Terra, esvaziando todas as cidades construídas depois de anos e anos no planeta. O conto O piquenique de um milhão de anos encerra o livro com um final impactante que me deixou pensando por longas horas e, digitando esta resenha, alguns dias depois de concluída a leitura, continuo pensativo com o final e seu significado.
            É o tipo de livro para se degustar e apreciar ao máximo, uma obra feita com esmero, que ultrapassa a excelência. Um clássico infelizmente pouco conhecido fora do nicho da science fiction, que se tornou um favorito para toda a vida. Ainda este ano, pretendo ler Fahrenheit 451, do mesmo autor, e é óbvio que minha opinião sobre ele estará aqui assim que ele for lido. Indico As crônicas marcianas a todo mundo, do fundo do meu coração. É uma leitura muito rica.




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O Inescrito vol. I, de Mike Carey e Peter Gross

A capa do primeiro volume da HQ, publicada pela Panini.
            Pra alguém que gosta de quadrinhos, a sensação de caminhar pela sua banca de jornal favorita é quase a mesma da de passear por uma livraria. No começo deste ano, encontrei, entre as novidades – informadas a mim por um sorridente jornaleiro sempre feliz ao ver o cara estranho que gasta uma nota em revistinhas todo mês – da vez, O Inescrito, de Mike Carey e Peter Gross. De cara a HQ já me chamou atenção, pois conheço a dupla de autores da minissérie The Sandman Presents: Lucifer, lançada ano passado pela Panini em um encadernado de luxo. Lucifer é uma ótima minissérie, com histórias solo de Lúcifer, o anjo caído que faz algumas aparições na obra prima de Neil Gaiman, Sandman. Como Gaiman já elogiava os autores e como eu mesmo havia contestado que ambos não são fracos quando li a minissérie, eu já sabia que O Inescrito seria algo bom.
          O primeiro volume tem uma aparência tímida. Fino, lançado em encadernado de capa mole e a um precinho camarada, estava quase invisível perto dos outros volumes, mas como eu não sou de sair da banca sem ter dado uma olhada em todas as HQs do recinto, puxei este pequeno tesouro daquele canto e já me interessei. O título e a capa me fisgaram fácil. Gostando de ler, e também de escrever, imaginei que a história fosse falar de um escritor ou sobre livros – e de fato não é muito diferente disso. A capa, com o protagonista sendo tragado por uma nuvem de palavras – ou sugado para dentro de um livro em um turbilhão de letras –, estava pedindo para ir para a minha estante e, assim, foi. 
          O Inescrito começou acabando com todas as minhas expectativas para com a história. De início, a abordagem é diferente da que eu imaginava – como algo que fosse retratar o cotidiano de um escritor com pinceladas de fantasia – sendo séria, divertida e adulta, pé no chão e mágica ao mesmo tempo. Os quadros iniciais de Gross se unem ao tom descritivo e juvenil que Carey adota, contando um trecho das aventuras de Tommy Taylor, um momento crítico em sua história. Tommy Taylor é um jovem menino bruxo que está destinado a derrotar o Conde Ambrosio e vive uma série de aventuras com seus outros amigos bruxos no caminho para seu destino. A descrição acaba e os quadros ganham um tom mais vívido. Conhecemos o mundo real, fora do mundo imaginário de Tommy Taylor. 
          O protagonista da história é Tom Taylor, filho de Wilson Taylor, um famoso escritor da maior série de fantasia infanto-juvenil no mundo. Wilson é o criador de Tommy Taylor, o protagonista desses livros, e criou o jovem menino bruxo inspirado no próprio filho – Tom. Acontece que Wilson está desaparecido há anos e Tom cresceu carregando a fama por aí, como uma lenda viva, dando autógrafos e indo a convenções. Uma repórter, na TommyCon, contesta a identidade de Tom e alega que ele não seja realmente filho de Wilson. Quarenta por cento de todas as pessoas alfabetizadas no mundo leram ao menos um livro de Tommy Taylor e a história é tão popular que a boataria levantada pela repórter sobre a identidade de Tom gera protestos e comoção na mídia. 
          É interessante a forma como a história muda de formato. Num momento, estamos vivendo as aventuras mágicas de Tommy Taylor em quadrinhos de cor apagada, que dão a ideia de irrealidade. Em seguida, estamos conhecendo os traumas e dramas de Tom. Então tudo muda e estamos lendo reportagens sobre os boatos em sites de fofocas, assistindo a reportagens nos protestos de rua defronte ao hotel onde Tom se hospeda e os autores usam inúmeras outras ferramentas narrativas para mostrar diferentes perspectivas e tornar a história palpável, quase um relato verídico diante dos nossos olhos. 
          A vida de Tom está cheia de reviravoltas com todo o rebuliço na mídia e coisas estranhas começam a acontecer. A realidade e a ficção começam a se entrecruzar e momentos dos livros de Tommy começam a se concretizar. Personagens escapam das páginas e cruzam o caminho de Tom Taylor, que sabe cada vez menos quem é – se Tom, Tommy, ou um estranho adotado por Wilson.
          Mike Carey e Peter Gross criaram um trabalho raro. A quarta capa está repleta de merecidos elogios à história, um achado em uma Vertigo que ruma cada vez mais rápido para o fim. Para quem é leitor assíduo, quem partilha do amor pelos livros, pelas letras, quem admira os grandes nomes da literatura, a história se torna ainda mais rica. É cheia de referências a grandes clássicos e o volume se encerra com um pequeno conto envolvendo vários figurões da literatura clássica. No segundo volume, há uma citação que prediz que O Inescrito “entra no páreo para se tornar a melhor publicação do selo Vertigo desde Sandman.” (The Onion). De fato, a história tem potencial, conteúdo e poder imaginativo comum à obra prima de Gaiman. Este é, na minha mais convicta opinião, o título em aberto que é o carro chefe da Vertigo no momento. A melhor história sendo publicada, dando vida à editora que já viu dias mais gloriosos. 
          Gostei de O Inescrito, do fundo de meu coração, e estou feliz por estar vendo esta HQ acontecer – e não a lendo depois de finalizada, como Sandman. Torço para que essa história traga um novo clima para a Vertigo, que deve voltar a tremer com o retorno de Neil Gaiman com histórias inéditas de Morpheus e dos Perpétuos de Sandman. Perdoem as inúmeras citações à obra de Gaiman, mas é difícil falar de O Inescrito sem falar dela. As duas histórias são grandes joias de fantasia, publicadas no mesmo selo, escritas e desenhadas por verdadeiros ourives das palavras e dos desenhos, que se ligam e têm as maiores imaginações dos últimos anos. 
          Sem mais enrolação, saiam daqui e vão ler O Inescrito.
 


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