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O Príncipe da Névoa, de Carlos Ruiz Zafón


Carlos Ruiz Zafón

Editora: Suma de Letras
1ª edição - 2013
ISBN: 9788581051222
184 páginas
Encontre na Saraiva.

Sinopse:
A nova casa dos Carver é cercada por mistério. Ela ainda respira o espírito de Jacob, filho dos ex-proprietários, que se afogou. As estranhas circunstâncias de sua morte só começam a se esclarecer com o aparecimento de um personagem do mal - o Príncipe da Névoa, capaz de conceder qualquer desejo de uma pessoa, a um alto preço.

O romance de estreia de Carlos Ruiz Zafón foi O Príncipe da Névoa. Na edição nacional, publicada pela Suma de Letras, há uma nota do autor sobre isso, em que ele comenta sobre a história ter sido a sua primeira e também menciona não ter voltado e feito alterações nela após tantos anos. A nota vem no começo do livro e não dei muita importância quando a li, mas, uma vez que concluí a leitura, entendi o tom de desculpas que ela tem e realmente desejava que o autor tivesse sim voltado e feito alterações no livro.

O Príncipe da Névoa conta a história de Max Carver, um menino cuja família está se mudando para uma pequena cidade no litoral para fugir da guerra – o livro se passa em 1943. O primeiro quinto do livro, onde somente a família Carver está em foco, é o mais divertido. O pai, Maximilian Carver, é o personagem mais – se não o único – interessante em cena. Os diálogos e a dinâmica que o autor vai desenvolvendo com os familiares juntos são divertidos, e não só poderiam como deveriam ter sido mais explorados.

O livro se desenvolve com uma estrutura quase de conto, embora tenha quase duzentas páginas. Não aprofunda demais nenhum dos personagens e se fecha basicamente na narrativa. Max é um menino que, como qualquer criança, é muito curioso e, explorando a nova casa, descobre no campo que há nos fundos um pequeno terreno gradeado, com aspecto de cemitério. Lá, Max descobre várias estátuas estranhas, todas dispostas em uma espécie de círculo riscado no chão, com uma estrela de seis pontas dentro. As estátuas representam artistas circenses e todas estão voltadas para a estátua que se posiciona ao centro, que é a de um palhaço.

Neste momento, perto da metade do livro, Zafón começou a criar um suspense creepy, envolvendo o tal cemitério de estátuas. A família encontra um projetor e rolos de filmes abandonados na casa pelos antigos donos e, ao executar um deles, encontram uma gravação amadora, feita pelo proprietário anterior. No filme, a câmera passeia pelo jardim de estátuas percorrendo o círculo e parando para filmar o rosto de cada uma, até chegar, por último, à estátua do palhaço. A irmã de Max fica com medo, dizendo que andara tendo pesadelos com aquele palhaço dias antes da mudança.

Um dos erros de Zafón foi ter abandonado essa tentativa de desenvolver um suspense. A partir do momento em que Roland, o novo amigo de Max, entra na história, ela se fecha sobre Max, sua irmã Alicia e Roland. Tão cedo se conhecem, Roland e Alicia se entrosam e logo começam um namorico que criou uma pequena barriga no meio do livro. Zafón ainda dá um jeito de tirar os outros personagens de cena, bruscamente, deixando a maior parte do restante da ação em volta do trio.

O Príncipe da Névoa não foi o meu primeiro contato com Zafón e realmente fico feliz que não tenha sido. O primeiro livro dele que li foi Marina, e este me cativou tanto que o autor ganhou meu respeito imediatamente, mas aí veio essa segunda leitura meh e estou meio arrependido de ter comprado vários livros dele de uma vez. O Príncipe da Névoa é uma idéia legal, uma premissa muito boa, mas que foi executada com muita pressa. Quem sabe, se Zafón tivesse dado mais cinqüenta ou cem páginas ao livro, teria tido tempo o bastante para amarrar todas as pontas que deixou soltas ao encerrar a trama. Fiquei decepcionado com o livro, que desperdiça um vilão sensacional. O Príncipe da Névoa, o fantasma-feiticeiro do livro, é um misto muito bom de Pennywise e Rumpelstiltskin, e teve uma performance tão medíocre que é broxante.

Se um dia Zafón resolver voltar atrás e reescrever O Príncipe da Névoa, eu até posso considerar relê-lo, mas, por enquanto, este é um livro que eu não indico a ninguém e que me arrependi de ter comprado.


Selvagens + O Inverno de Frankie Machine, de Don Winslow

Os livros de Don Winslow foram outra das minhas andanças a territórios não explorados em minha experiência como leitor. O único exemplo que tive de um livro ou autor do gênero tough-lit foi o de Bernard Cornwell, mas, como em algum momento durante a leitura de um dos livros de Don Winslow pensei que eles seriam uma antítese perfeita para os romances chick-lit, imagino que devam entrar no nicho.




Don Wislow
Editora Intrínseca
ISBN: 9788580572292
1ª edição - 2012
288 páginas
Encontre na Saraiva

Sinopse:
Ambientalista e filantropo nas horas vagas, Ben comanda um negócio de venda de maconha em Laguna Beach. Ao lado de seu parceiro, o ex-mercenário Chon, ele fatura lucros consideráveis e mantém uma clientela fiel. No passado, quando seu território foi invadido, Chon tratou de eliminar a ameaça. Agora, porém, eles parecem estar diante de uma força da qual não podem dar conta: o Cartel de Baja, do México quer tomar a região e avisa que não irá aceitar uma negativa como resposta. Quando os dois amigos se recusam a recuar, o cartel reforça a advertência sequestrando Ophelia, companheira e confidente dos rapazes. O sequestro deflagra uma gama alucinante de negociações habilidosas e reviravoltas inacreditáveis, que deixarão os leitores ansiosos para descobrir o custo da liberdade e o preço de um grande barato. Uma engenhosa combinação entre o suspense carregado de adrenalina e a reportagem policial, Selvagens é um thriller alucinante, escrito por um mestre do gênero no auge de sua carreira.

Selvagens foi o meu primeiro contato com o trabalho de Winslow. Eu me lembro de, no ano passado, ter visto o lançamento Kings of Cool – que, por sinal, é um prequel para Selvagens – exposto em todas as livrarias em que eu passava, mas não guardei o nome do autor, de forma que só após ter concluído a leitura e pesquisando mais sobre seus livros é que fui me dar conta de que era ele quem assinava Kings of Cool. A leitura de Selvagens foi uma daquelas mais deliciosas, quando começamos uma leitura sem saber absolutamente nada do livro. Abri Selvagens sem ter lido orelha, sinopse ou seja lá o que for, apenas atraído pelo primeiro capítulo, um dos mais sensacionais primeiros capítulos que eu já vi (clica aqui pra ver, é curtinho e não é spoiler).

O livro é focado em O(phelia), Ben e Chon, que levam uma vida invejável, fruto de seu trabalho duro. O é uma espécie de Dona Flor moderna, rica, safada e californiana. Os três sustentam uma espécie de poliamor: basicamente ela é namorada dos dois, mas eles não são namorados um do outro embora fosse sensacional se fossem. Os dois se respeitam e se amam como irmãos (Lannister, oi! Possibilidades! Parei.), e simplesmente amam a mesma mulher. É moderno, é complexo, é sensacional. Ben e Chon são responsáveis por variações especiais de maconha, combinações únicas com efeitos diversos. Basicamente, são os grandes fornecedores de uma das melhores maconhas do mundo para toda a Califórnia e o resto dos Estados Unidos. O cenário californiano está tão entranhado na trama – com tantas cenas e menções às suas praias douradas, com personagens surfando e tudo mais – que o estado se torna quase um personagem à parte. O livro já começa, desde as primeiras páginas, nos apresentando este cenário e seus personagens principais, começando por O(phelia). A história tem uma carga bem pesada de sexo, drogas e violência, que não atrapalham de forma alguma a leitura, muito pelo contrário. Don Winslow tem uma narrativa bastante leve e, com capítulos curtos, o livro começa a voar diante dos nossos olhos sem que percebamos.

O narrador é outra delícia à parte. Cheio de tiradas sensacionais, sarcástico e desbocado, às vezes faz parecer que a história toda é uma conversa entre camaradas. A partir do momento em que os personagens principais estão apresentados, o autor lança o conflito, a reviravolta da história. Essa reviravolta já está denunciada na sinopse, e eu a considero um spoiler, portanto não irei mencionar. Leia a sinopse por sua própria conta e risco. De qualquer maneira, saber isso não vai prejudicar tanto a leitura: a partir do momento em que a história dá essa cambalhota, tudo só acelera e as coisas vão ficando mais sujas e violentas, a adrenalina sobe a níveis críticos e tudo culmina em um clímax perfeito. Eu, que sempre achei repetitivos e sem graça aqueles filmes de ação sobre traficantes, perseguições e coisas assim, nunca achei que fosse gostar tanto de uma história com os mesmos elementos. Talvez seja a forma como Winslow a construiu que faça toda a diferença. Esse foi o livro adulto que me fez voltar a shippar – Chon, Ben e O é o que? Cheno? – novamente. Esse livro acabou e eu fiquei com tanta vontade de mais que minha reação ao descobrir Kings of Cool foi mais ou menos a da irmã da Chloe.

E como menção honrosa: O filme é dirigido pelo Oliver Stone, o mesmo de Natural Born Killers. Tem John Travolta, Salma Hayek e ninguém menos que Aaron Taylor-Johnson, Taylor Kitsch e Blake Lively como o trio muito mais que shippável. Vem ver o trailer (link), que o filme é ótimo!




Don Wislow
Editora Intrínseca
ISBN: 9788580575484
1ª edição - 2014
352 páginas
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Sinopse:
Frank Machianno é um assassino de aluguel. Um assassino de aluguel aposentado, na verdade. Quando estava na ativa, era conhecido como Frankie Machine, mas os dias de crime ficaram no passado e ele leva uma vida tranquila no litoral de San Diego, onde é conhecido por ser um empresário comprometido e um pai e ex-marido exemplar. Quando, porém, o filho do atual chefe da máfia lhe pede um favor, Frank se vê obrigado a atender, e as ameaças de sua antiga profissão voltam a atormentá-lo. Alguém do passado o quer morto e Frank precisa descobrir quem e por quê. O problema é que o rol de candidatos é tão extenso quanto a lista telefônica da Califórnia e o tempo de Frankie está acabando. Ao retratar com riqueza de detalhes a violência inata ao mundo da máfia, Don Winslow construiu um thriller magnífico, repleto de ação e de personagens carismáticos. Combinando bom humor, inteligência e dinamismo, O inverno de Frankie Machine transporta o leitor para os cenários quentes de San Diego e da cultura surfista, com o auxílio de um anti-herói cativante.

Antes que eu pusesse as mãos no meu tão desejado Kings of Cool, recebi da linda da Intrínseca O Inverno de Frankie Machine, que foi um dos lançamentos da editora em junho de 2014. O livro tem um tom bastante diferente de Selvagens e talvez tenha sido a minha expectativa de ler algo como ele que contribuiu para que eu ficasse um pouquinho meh com essa segunda leitura.

O Inverno de Frankie Machine começa com uma pegada diferente de Selvagens. Ao mesmo passo que ele tem um ritmo que demora um pouco mais a engrenar, aqui Winslow está mais sarcástico do que antes. Frank Machianno, o nosso protagonista, é dono de uma loja de iscas no litoral californiano. É um homem que já não é mais tão jovem, que surfa pela manhã com mais alguns tiozões antes que a molecada encha a praia, e que mantém sistematicamente a sua rotina. Tem cronometradas as suas horas de sono, o tempo para se vestir, tomar banho e preparar o café da manhã. Workaholic é o nome do meio de Frank. Além de ser o dono de sua loja de iscas, ele é um empresário, tem uma série de investimentos pela cidade e faz questão de manter o olho em tudo. O que demora um pouco a ser revelado é que Frank, quando mais jovem, foi conhecido como Frankie Machine e trabalhava com a máfia como matador de aluguel.

Esse lado de ex-mafioso aposentado é um dos temperos mais divertidos da história. Winslow troca de pontos de vista o tempo todo, sem separação nem aviso prévio. Num parágrafo é ele, narrador onisciente em terceira pessoa, no outro é Frank, narrando de seu próprio ponto de vista. Frank faz algumas referências à cultura pop, principalmente ao Poderoso Chefão, ícone do cinema e primeira coisa de que muita gente se lembra quando se fala de máfia. Frank deve ter sido o meu primeiro anti-herói na literatura. Ao mesmo tempo que não gosto muito dele por ser tão chato, metódico e quadrado em algumas coisas, não consigo não adorar ele virado no Jiraya, badass como ele só.

A partir do momento em que Frank sofre um atentado, acaba se vendo obrigado a se meter com a máfia novamente para descobrir o mandante de sua morte. Don Winslow parece ter uma fórmula que dá muito certo para suspenses de sucesso. Sol californiano, sexo e drogas em abundância, violência até dizer chega, pitadas de acidez e sarcasmo e uma trama que começa tranquila até virar do avesso, dar piruetas e tornar-se uma correria deliciosa livro adentro. Graças a esse homem, eu estou gostando cada vez mais de histórias sobre a máfia e, depois deste livro, vou me atirar nos filmes d’O Poderoso Chefão e em todo outro livro de Winslow que eu vir pela frente.

Garota Exemplar, de Gillian Flynn

Gillian Flynn
ISBN: 9788580572902
448 páginas (1ª edição - 2013)
Editora Intrinseca
Encontre na Saraiva.

Sinopse:
Uma das mais aclamadas escritoras de suspense da atualidade, Gillian Flynn apresenta um relato perturbador sobre um casamento em crise.
Na manhã de seu quinto aniversário de casamento, Amy, a linda e inteligente esposa de Nick Dunne, desaparece de sua casa às margens do Rio Mississippi. Aparentemente trata-se de um crime violento, e passagens do diário de Amy revelam uma garota perfeccionista que seria capaz de levar qualquer um ao limite. Pressionado pela polícia e pela opinião pública e também pelos ferozmente amorosos pais de Amy, Nick desfia uma série interminável de mentiras, meias verdades e comportamentos inapropriados. Sim, ele parece estranhamente evasivo, e sem dúvida amargo, mas seria um assassino?
No ano passado, ganhei de presente o livro Garota Exemplar, que, então, era um lançamento recente da Intrínseca. Mas o livro acabou indo parar na minha não tão pequena pilha de livros a serem lidos e lá ficou por meses. Já faz mais de um ano que o ganhei e só agora fui lê-lo, e estou me odiando por ter deixado este livro incrível acumulando pó por esse tempo todo.

Este ano tem sido muito bom em termos de leituras. Já experimentei alguns gêneros e autores bem diferentes daqueles com os quais estou acostumado, e Gillian Flynn e seu livro estão entre eles. Acho que Garota Exemplar foi meu primeiro mistério propriamente dito. Nunca li Agatha Christie – crucifiquem-me –, mas o sentimento que tive lendo Flynn foi o mesmo sobre o qual já vi as pessoas comentarem ao ler os livros dela: aquele desejo imenso de dar uma espiada na página final pra finalmente saber como a trama se resolve. A curiosidade estava me matando durante a leitura.

Garota Exemplar é contado em primeira pessoa, em capítulos alternados entre a visão de Nick Dunne e a de sua esposa, Amy Elliot (Dunne). A história começa no dia do quinto aniversário de casamento do casal, que é também o dia em que Amy desaparece. Os capítulos de Nick nos contam o presente, o desenrolar das investigações e toda a comoção que o sumiço de sua esposa causou, enquanto os de sua esposa são constituídos de entradas de seu diário, flashbacks de anos anteriores ao acontecido. Amy nos conta a história de seu casamento com Nick, desde o dia em que os dois se conheceram. É muito difícil falar sobre a destreza com que a autora construiu a história sem a estragar para os futuros leitores. À medida que os capítulos vão passando, as investigações começam a apontar na direção de Nick. A polícia e todos começam aos poucos a achar que ele matou a esposa.

Gillian Flynn é GENIAL. No decorrer da história, ela brinca com a cabeça do leitor, nos fazendo desconfiar ora de um, ora de outro, para então nos puxar o tapete com um puta plot twist. As entradas no diário de Amy vão ficando mais recentes à medida que a história avança, e o leitor sabe que chegará um momento em que elas chegarão ao “Dia do” – que é como o livro chama a data em que Amy desapareceu. Isso contribui para aumentar o suspense – como se fosse mesmo necessário –, além da investigação policial sobre o desaparecimento e algumas entradas suspeitas no diário que nos fazem desconfiar ainda mais de Nick. A pergunta que permeia a nossa cabeça na maior parte do tempo durante a leitura é: afinal, ele matou ou não matou a esposa?

Gillian Flynn construiu personagens absurdos. Todos são milimetricamente calculados e executados com maestria. Nick, que conhecemos muito bem durante a primeira metade do livro, é um ótimo exemplo disso. É uma figura complexa, com um background bem sólido, com vontades que o movem, com sentimentos, com qualidades, defeitos, vergonhas, orgulhos e, é claro, segredos. Em seus capítulos, ele não confessa se matou ou não, mas também não deixa de levantar suspeitas sobre si mesmo. O livro foi bem orquestrado nesse sentido, para conduzir o leitor numa trilha crescente de suspense que tem um ápice que não é desse mundo. Ao concluir a leitura e pensar sobre a história, é possível ver o quão bem pensado e organizado foi o livro. O quão bem Gillian Flynn o executou para brincar com a nossa mente, confundir-nos para encerrar tudo com uma pancada na cabeça digna de Mr. Punch. “É assim que se faz!”. Esse livro foi um dos melhores que li em tempos e, por um momento, ameaçou tirar o trono de Precisamos falar sobre o Kevin de melhor leitura do ano. Garota Exemplar definitivamente me tirou a vontade de me casar, e me deixou com um pouco de medo das pessoas – e, talvez, da autora também.

Garota Exemplar vai ganhar ainda este ano sua adaptação para o cinema, que recentemente teve segundo trailer liberado. Você pode conferi-lo aqui.


Quem ficou com vontade de ler o livro põe o dedo aqui, que já vai fechar pode comemorar, porque nós vamos sortear um exemplar dele, em parceria com a Editora Intrínseca! \o/ 

Para participar, você só precisa preencher o formulário no rafflecopter aqui embaixo e seguir estas regrinhas:
- Curtir a nossa fanpage no facebook.
- Compartilhar a imagem da promoção (lembre-se de fazê-lo em modo público).
- Ser seguidor do blog.
- Ter endereço de entrega no Brasil.


PROMOÇÃO ENCERRADA!

Nosso vencedor foi o Renan Esteves. Renan, nossa equipe entrará em contato com você o mais rápido possível pra pegar o seus dados, e o livro será enviado diretamente pela Editora Intrínseca. Esperamos que goste! ;) E, pra quem não ganhou, fiquem ligados que em breve tem mais!

Especial Seriados: 3 grandes estreias da summer season


2014 tem sido um ano movimentado para a TV. Tivemos uma porrada de seriados cancelados, alguns retornando e muitas, muitas estreias. A temporada de verão lá no hemisfério norte já começou e, das próximas estreias, separei três que têm me despertado a curiosidade ultimamente e estrearão nas próximas semanas.
A primeira delas, cujo lançamento da segunda temporada ocorre hoje, é Orange is the New Black. Embora eu ainda não tenha começado a acompanhar, participo de um grupo de discussão de seriados no Facebook e ouço falar muito bem da série. Em todo lugar que se procura sobre o seriado, encontramos escrito em letras grandes e garrafais que ele foi criado pelas mesmas mãos que criaram Weeds. Este sim eu já assisti, e era um seriado que me fazia rir muito. Aparentemente, Orange is the New Black balanceia os momentos cômicos e dramáticos muito bem, e esse trailer da segunda temporada me deixou curioso pelos barracos todos. Quem não adora um, né? De cara, o elenco me parece bem maneiro em questão de performance. Inclusive, a editora Intrínseca está lançando nesse mês o livro homônimo que deu origem à série e que conta a história real de Piper Kerman. Saiba mais sobre o livro, visite a página de Orange is the New Black no Netflix e confira o trailer da segunda temporada, que começa 06/06.


Para a segunda estreia que quero comentar não há um burburinho tão grande assim. Under the Dome também está retornando com sua segunda temporada, com lançamento oficial dia 30 de junho (uma segunda-feira) no canal americano CBS. Vi a primeira temporada dividir opiniões entre quem a acompanhou. Tenho colegas que leram o livro e detestaram a série, mas outros que também leram e amaram – assim como existem os que não conhecem a história original e estão igualmente divididos em opinião. Eu, como fã muitas vezes xiita de Stephen King, gostei pra caramba da primeira temporada, mas consigo entender a revolta e as reclamações de quem não gostou. A história, planejada para render várias temporadas, já teve desde o começo algumas divergências em relações ao livro, e elas só vieram a aumentar com o desenrolar da temporada. É uma das primeiras vezes que eu consigo observar livro e adaptação como duas obras distintas e gostar de ambos separadamente. O seriado deve se distanciar mais do livro nessa temporada, mas eu me tranquilizo pelo envolvimento do próprio Stephen King na produção. Visite a página de Underthe Dome na CBS e confira o teaser da segunda temporada, que estreia em 30/06. Leia também a nossa resenha de Sob a Redoma.


E por último, mas não menos importante, o seriado que provavelmente é a minha maior aposta e esperança para esse ano. The Strain é a adaptação para a TV da Trilogia da Escuridão, escrita por Guillermo Del Toro e Chuck Hogan, que estreia no canal americano FX no domingo, dia 13 de julho. A trilogia conta a história de uma pandemia que toma conta de Nova Iorque. Seguimos Eph, um médico do CDC que se envolve na tentativa de conter um vírus que chega à cidade em um avião onde todas as pessoas à bordo estão mortas. O primeiro livro da série já teve resenha aqui no blog, e eu ainda preciso ler a conclusão da trilogia, mas sou um fã desesperado. A mitologia que os dois autores criaram como pano de fundo para os vampiros da epidemia é sensacional, e os infectados – os vampiros – sozinhos já são sensacionais. Estou com expectativas altíssimas para o seriado, o que nem sempre é uma boa coisa, mas não consigo não colocar fé nesse projeto que está sendo desenvolvido pelo próprio Del Toro. O FX vem liberando uma série de teasers para os quais eu só tenho essa reação. Visite a página de The Strain no site do FX e confira abaixo a compilação de todos os teasers lançados até agora.

Celular, de Stephen King

Stephen King

Edição: 1
Editora: Objetiva
ISBN: 9788573028621
Ano: 2007
Páginas: 400

Sinopse:
Onde você estava no dia 1º de outubro? O protagonista desta história, Clay Riddell, estava em Boston, quando o inferno surgiu diante de seus olhos. Bastou um toque de celular para que tudo se transformasse em carnificina. Stephen King – que já nos assustou com gatos, cachorros, palhaços, vampiros, lobisomens, alienígenas e fantasmas, entre outros personagens malévolos – elegeu os zumbis como responsáveis pelo caos desta vez.
Depois de anos de tentativas frustradas, o artista gráfico Clay Riddell finalmente consegue vender um de seus livros de histórias em quadrinhos. Para comemorar, decide tomar um sorvete. Mas, antes de poder saboreá-lo, as pessoas ao seu redor, que por acaso falavam ao celular naquele momento, enlouquecem.
Fora de si, começam a atacar e matar quem passa pela frente. Carros e caminhões colidem e avançam pelas calçadas em alta velocidade, destruindo tudo. Aviões batem nos prédios. Ouvem-se tiros e explosões vindos de todas as partes.
Neste cenário de horror, Clay usa seu pesado portfolio para defender um homem prestes a ser abatido, Tom McCourt, e eles se tornam amigos. Juntos, eles resgatam Alice Maxwell, uma menina de 15 anos que sobreviveu a um ataque da própria mãe.
Os três sortudos — entre outros poucos que estavam sem celular naquele dia — tentam se proteger ao mesmo tempo em que buscam desesperadamente o filho de Clay. Assim, em ritmo alucinante, se desenrola esta história. O desafio é sobreviver num mundo virado às avessas. Será possível?

Stephen King é, de fato, um nome que todo leitor já ouviu em algum momento da vida, mesmo que nunca tenha lido ou se interessado pelo seu trabalho. Quando mais novo, na exata época em que Crepúsculo estava em seu auge, eu nunca havia tido contato com a obra de King, mas quando li sobre uma polêmica declaração do autor sobre Stephenie Meyer e Harry Potter – se você não sabe do que estou falando, clique aqui –, imediatamente simpatizei com o cara. Logo fui correr atrás de ler algo dele, de quem eu já ouvira falar algumas vezes, e o primeiro King em que coloquei as mãos foi Celular (no original, Cell).

Na época, eu também estava numa curiosidade enorme de ler livros sobre zumbis, que, ao contrário de agora, não eram tão populares assim – tínhamos os de Max Brooks e mais um ou dois livros de autores obscuros e pouco divulgados –, e o que escolhi figurava em uma lista de livros sobre zumbis. E aí entra uma polêmica interessante. Porque para alguns leitores, dentre os quais eu me encaixo, Celular não é exatamente sobre zumbis.

O protagonista da história é Clay Riddel, um ilustrador que, depois de anos tentando vender sua graphic novel, finalmente encontra em Boston uma editora pra quem consegue vender e resolve comemorar comprando uma casquinha de sorvete. É interessante que logo aqui, nas primeiras páginas do livro, Stephen King deixa um easter egg: a tal graphic novel em que Clay trabalhou por tanto tempo, a qual é citada em mais alguns momentos da história e sempre soa muito familiar para o leitor familiarizado com A Torre Negra. Na fila do carrinho do sorvete, Clay vê uma mulher surtar atacando o sorveteiro e, olhando em volta, isso tudo se repete. Pessoas comendo outras vivas, matando e espancando umas as outras, atirando-se de prédios, batendo carros e espalhando o caos por toda a cidade. Mais tarde, ele e os sobreviventes dessa primeira onda de destruição percebem um padrão. Somente as pessoas que estavam falando ao celular naquele momento, por volta das três da tarde daquele dia, ficaram malucas com o que ouviram.

O suspense e desespero que vão se criando em torno da situação são sensacionais. Pensemos: quando nós vemos alguma coisa errada acontecendo na rua, quando de repente vemos a mulher na nossa frente na fila do sorvete pular pra cima do sorveteiro e rasgar a garganta dele com os dentes, qual é a primeira coisa que a maioria das pessoas pensaria em fazer? Pegar o telefone e chamar a polícia? Os bombeiros? E isso é uma das maiores sacadas da história. O caos se espalha por toda parte, e os personagens todos estão com muito medo de tentar pegar o telefone para ter notícias, pedir ajuda ou fazer o que quer que seja.

Celular é um livro simples, mas genial. É uma história de horror, suspense, drama e sobrevivência, no maior estilo apocalipse zumbi. Mas aí entra a discussão do zumbi. Zumbi, como estamos acostumados a ver, é aquele monstro morto-vivo que se alimenta de carne de gente viva; esse estado zumbi é normalmente apresentado como uma doença contagiosa, espalhada através da mordida dos monstros. Estamos acostumados a vê-los lentos, normalmente com pouca inteligência, mas há casos diferentes, como o dos zumbis de Madrugada dos Mortos (2004), que são velozes e muito mais mortais e agressivos que os clássicos zumbis. As criaturas de Celular, as pessoas afetadas pelo pulso transmitido nos telefones, se comportam no primeiro momento de forma muito parecida com zumbis. Comendo, matando e retalhando todas as pessoas e seres vivos que estiverem à vista, mas esse é um comportamento que muda no decorrer do livro. Não existe nenhum tipo de transmissor do estado fonático – que é como o termo phoner, que os personagens usam para se referir às pessoas afetadas pelo Pulso, foi traduzido –, a não ser o próprio Pulso. Não é uma doença contagiosa, como nos zumbis que estamos acostumados a ver. Após o Dia do Pulso, o comportamento dos fonáticos muda e eles deixam de destruir e matar tudo aleatoriamente no maior estilo zumbi clássico para se reunir e andar em bandos.

King desenvolveu os fonáticos de forma muito interessante e assustadora. O comportamento dessas pessoas só vai ficando mais assustador e estranho conforme os dias após o pulso vão passando. Eles demonstram inteligência e, em alguns momentos, se comunicam com os não-fonáticos, o que, na minha opinião, os desclassifica definitivamente da definição de zumbi (além de, é claro, o fato de eles não estarem mortos). Clay tem como objetivo encontrar o filho e a esposa, que estão em sua cidade, Kent Pond, que ele deixou ao viajar para Boston em busca de um contrato com uma editora. O tempo todo Clay se pergunta se a mulher e o filho foram pegos pelo Pulso, imagina se o filho estaria ao telefone no momento da primeira transmissão, ou se tentara usá-lo depois para pedir ajuda. Clay conhece outros sobreviventes no caminho e eles se juntam a ele em sua busca pelo filho.

O livro é cheio de ação, muito bem distribuída e equilibrada com o desenvolvimento dos personagens, drama e suspense. É tudo o que muitos livros com histórias de sobrevivência em apocalipse zumbi (exemplo: Apocalipse Z) tentaram em vão fazer: criar uma história bem escrita, pesada, mas que mantenha o leitor interessado o tempo todo em tudo o que está acontecendo e vai acontecer, desde a primeira até a última página. Foi a minha primeira leitura de Stephen King, que devorei avidamente em pouco mais de um dia, e é um dos meus livros favoritos do Mestre até hoje. O livro está ganhando uma adaptação para o cinema, que deve ser lançada no segundo semestre de 2014.

A Torre Negra - O Pistoleiro (Vol. I), de Stephen King



Stephen King
Edição: 1
Editora: Suma de Letras
ISBN: 9788581050751
Ano: 2012
Páginas: 221
Encontre na Cultura.

Sinopse:

Condenado a vagar por um mundo pós-apocalíptico no encalço de sua nêmesis, o misterioso Homem de Preto, Roland, encontra personagens cujo destino está ligado ao seu com um papel crucial em sua caçada. Jake Chambers é um estranho menino que foi transportado para o Mundo-Médio após morrer tragicamente na Nova York de 1977. Alice, uma fascinante mulher da desolada cidade de Tull. O destino - ou ka - reserva a morte para ambos, e Roland conta apenas com suas habilidades como pistoleiro para derrotar o inimigo. Essa jornada através do Mundo Médio o leva em direção à Torre Negra, que a tudo observa no horizonte distante.

Em 1967, um jovem americano, do alto da febre da idade e exalando a confiança da juventude, havia lido e se encantado com o trabalho de J. R. R. Tolkien em O Senhor dos Anéis. Foi aí que o jovem Stevie, inspirado, começou a cozinhar em sua cabeça uma história que levaria mais de trinta anos para ser concluída. A história que, segundo ele mesmo, ele escrevia não porque queria, mas porque precisava contar.

Na introdução de O Pistoleiro, Stephen King nos conta sobre a juventude e sobre como nasceu em sua imaginação poderosa e genial fértil a história d’A Torre Negra, que lhe custou muitos anos para ser contada e quase ficou sem final quando, em 1999, o autor sofreu um grave acidente. King discorre na introdução, e também no prefácio seguinte a ela, a respeito disso. Conta, em alguns momentos, das cartas que recebeu de alguns leitores que, à beira da morte, o pediam para revelar o final da história, que até então só havia sido publicada – e escrita – até o quarto volume. King aprontou e terminou os três volumes finais da história com pressa e, cinco anos depois do acidente, o último e aguardado volume foi lançado.

A Torre Negra é, segundo seu próprio autor, a obra máxima de Stephen King. Seu trabalho mais importante, embora não o mais conhecido. O autor confessa que, se em uma palestra lotada perguntar quantos dos presentes já leram algum de seus trabalhos e em seguida perguntar quantos destes leram A Torre Negra, menos da metade dos leitores responderia que sim. Mas King não observa isso com pesar ou reclamando, e é ciente de que quem leu A Torre foi arrebatado pela história que se tornou tão importante para seus fãs quanto para seu criador.

O primeiro livro nos apresenta Roland Deschain, O Pistoleiro, e sua busca pela Torre Negra, que se acredita ser o centro de seu mundo – e de todos os mundos. Roland é o último pistoleiro de sua ordem, e seu destino é atravessar seu mundo e encontrar a Torre Negra. O mundo de Roland é um grande cenário pós-apocalíptico e desértico, onde peste, fome, guerra e doença devastaram tudo. King tem como fontes de inspiração maior para o universo criado a Terra Média de Tolkien e o poema épico de Richard Browning, “Childe Roland To The Dark Tower Came”, mas a história não se resume a esta salada de influências e inspirações. É original e surpreendentemente verossímil, com todos os elementos unidos num só.

Quando começamos a história, Roland está no encalço de um homem, o Homem de Preto, cujo nome mais tarde nos é revelado: Walter. Ele é um dos personagens mais importantes e enigmáticos de toda a história, aparecendo em momentos arbitrados com maestria por King. A memorável frase inicial do livro – e de toda a jornada iniciada nele – é um mantra para os fãs e fala dessa busca inicial de Roland: “O Homem de Preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás.” ¹. No decorrer da saga, conhecemos três faces de Roland. O Roland de antes, o Roland de agora e o Roland de depois. O Roland no presente deste primeiro livro é o Roland de agora, apresentado como um homem que já não está mais na flor da idade, O Pistoleiro, cheio de cicatrizes de batalha, amigos e um amor perdido. Segue em busca d’A Torre, custe isso o que lhe custar. O Roland de antes nós conhecemos só nos livros seguintes, quando nos é contada a sua história passada, antes dos eventos de O Pistoleiro. E o Roland de depois é o que o personagem vai se tornando no desenrolar da história, conforme sua jornada se desenvolve e se aproxima do fim.

A Torre Negra é o que Stephen King tem de melhor, tudo numa única história. Misturando o terror que é sua marca registrada com fantasia, referências a cultura pop, lendas arturianas, faroeste e ficção científica, King encontrou sua melhor forma nesta história. É uma impressão pessoal minha e de muitos outros leitores, essa de que não é possível ver a vida da mesma forma depois de ler A Torre Negra. O que Stephen King desenvolveu é uma obra prima da ficção. Segundo ele, os sete livros são partes de um único romance, este, então, um dos maiores, se não o maior, romance popular de todos os tempos. Apresenta na história o Ka, algo como o Destino, mas muito mais levado a sério, poderoso e cíclico. Essa ideia, que tem importância mor na trama, foi também a que mais me marcou, e as palavras do Mestre serão sempre um lema onde o Ka é como uma roda que move todas as coisas e que gira sempre para o mesmo lugar.

A Torre Negra é uma história que levou uma vida para ser contada e que, mesmo após ser concluída, ainda tinha e tem muito a ser dito. Após o lançamento do último volume, King ainda escreveu um outro livro, que amarra algumas pontas soltas e preenche a lacuna entre o quarto e o quinto livro. Uma série em quadrinhos que conta a trajetória de Roland em sua juventude, tornando-se o homem que conhecemos em O Pistoleiro, foi desenvolvida pela Marvel Comics e publicada em cinco arcos entre 2007 e 2009. Em diversos de seus livros, Stephen King esconde easter eggs, referências algumas vezes sutis e outras vezes que se relacionam diretamente ao universo de Roland. E ainda assim, com tanto já explorado, deve haver mais histórias sobre o pistoleiro escondidas no fundo da cabeça de Stephen King. Acredito que o Ka de Stephen King seja este universo, e ele sempre vai girar em sua direção e voltar a ele. Direta ou indiretamente. E será sempre um prazer revisitar este mundo e reencontrar o Pistoleiro em suas andanças.

¹ Editora Objetiva, 2004. Tradução de Mário Molina.  Do original: “The man in black fled across the desert, and the gunslinger followed.”

Psicose, de Robert Bloch

Robert Bloch
Edição: 1 (2013)
Editora: DarkSide
ISBN: 9788566636109
Páginas: 256
Encontre: Saraiva

Sinopse:
Edição especial capa dura com caderno de fotos do clássico do Hitchcock. Uma verdadeira edição de colecionador, para quem gosta e entende do assunto. “Psicose”, o clássico de Robert Bloch, foi publicado originalmente em 1959, livremente inspirado no caso do assassino de Wisconsin, Ed Gein. O protagonista Norman Bates, assim como Gein, era um assassino solitário que vivia em uma localidade rural isolada, teve uma mãe dominadora, construiu um santuário para ela em um quarto e se vestia com roupas femininas. Em “Psicose”, sem edição no Brasil há 50 anos, Bloch antecipou e prenunciou a explosão do fenômeno serial killer do final dos anos 1980 e começo dos 1990. O livro, assim com o filme de Hitchcock, tornou-se um ícone do horror, inspirando um número sem fim de imitações inferiores, assim como a criação de Bloch, o esquizofrênico violento e travestido Bates, tornou-se um arquétipo do horror incorporado a cultura pop.

Nunca me senti tão feliz por nunca ter assistido um dos maiores clássicos do cinema mundial. Sempre existe aquela exclamação de um amigo cinéfilo que acha o maior absurdo da face da Terra alguém não ter assistido Psicose e, ao menos desta vez, não senti aquela vergonha interna e sentimento interno de “sou um sem cultura”.

Depois de anos sem uma edição do livro no Brasil, a Editora Darkside trouxe para as nossas terras o livro que originou o clássico de Alfred Hitchcock. Robert Bloch é respeitadíssimo nos Estados Unidos, elogiado e reverenciado por diversos grandes autores e, tristemente, tão pouco conhecido no Brasil. A Darkside tem se tornado famosa pelo capricho de suas edições e o projeto gráfico de Psicose é um exemplo perfeito disto. A editora publicou o livro em duas versões – uma edição comum e uma edição especial de colecionador, de tiragem limitada –, mas ambas exibem o mesmo primor com revisão e diagramação, possuem imagens relacionadas ao filme e belas aberturas de capítulo representadas por chaves do Bates Motel.

O autor inicia a narrativa nos apresentando Marion “Mary” Crane, uma secretária que se encontra com uma oportunidade única nas mãos quando o patrão lhe entrega quarenta mil dólares em dinheiro para serem depositados. A moça foge com o dinheiro, planejando uma nova vida no caminho, enquanto troca de carro constantemente para evitar ser rastreada. Ela sai em busca do noivo, que vive em uma cidadezinha distante, e pretende, com parte do dinheiro roubado, saldar uma dívida que o falecido sogro deixou e que impediu o casal de planejar seu casamento.

A prosa de Bloch é direta, ágil, madura, sem rodeios. Mary e todos os outros personagens primários são muito bem apresentados e desenvolvidos, em um bom timing do autor para o ritmo acelerado de ação do livro e para as passagens onde os personagens são esmiuçados perante os olhos do leitor. Bloch faz tudo em um ritmo perfeito, de suspense crescente, e que, à medida que a leitura avança, alimenta uma curiosidade tão grande que se torna quase impossível fazer uma pausa. A sensação de pausar a leitura de Psicose é exatamente a mesma de parar no meio do melhor dos filmes de suspense.

No caminho para a cidade de seu noivo, Mary toma uma estrada errada e, tarde da noite, faz uma pausa para descansar num motel* de beira de estrada que encontra. O Bates Motel está quase falido devido à abertura de uma grande rodovia que tornou obsoleta a estrada à beira da qual ele se estabelece. O motel é dirigido por Norman Bates, um gorducho e impotente homem de meia idade que ainda vive sob a sombra da autoridade de sua mãe, uma viúva senil. Embora doente e dependente, a Sra. Bates exerce autoridade total sobre Norman, que é submisso à mulher desde que se entende por gente e nunca realiza seus planos de fechar o motel e internar a velha em um asilo.

É aí, no primeiro encontro entre Norman e Mary, que o suspense começa a ascender aos níveis mais altos. A história sofre um plot twist e embarca numa investigação policial agoniante que vai te fazer virar páginas e roer unhas até o final do livro. Bloch construiu um desfecho impressionante, que é ainda mais inesperado quando o leitor nunca viu o filme. Foi exatamente esse final de cair queixos que me fez feliz por nunca ter tido contato com esta obra prima antes. É possível entender, ao ler o livro de Robert Bloch, o porquê de Alfred Hitchcock ter corrido para comprar todos os exemplares existentes e impedido que as pessoas soubessem o final antes que ele produzisse o filme. É necessário acompanhar a história desde o começo para sentir o suspense se instalar e crescer dentro de você, para culminar nesse clímax espetacular. As pessoas não deviam se sentir carentes de cultura por não ter visto o filme de Hitchcock, mas sim por não ter lido antes o livro que o inspirou.

Notas d’A Editora: *Só lembrando que motel, aqui, não tem o significado comumente atribuído no Brasil. Nesse texto, a palavra significa “hospedaria de beira de estrada”.
“Sempre existe aquela exclamação de um amigo cinéfilo que acha o maior absurdo da face da Terra alguém não ter assistido Psicosee “As pessoas não deviam se sentir carentes de cultura por não ter visto o filme de Hitchcock, mas sim por não ter lido antes o livro que o inspirou” foram passagens obviamente escritas como indiretas deselegantes direcionadas à minha pessoa, e estou profundamente ressentida. Risos.