Briga de Cachorro Grande, de Fred Vogelstein

Fred Vogelstein
Briga de Cachorro Grande: Como a Apple e o Google Foram à Guerra e Começaram um Revolução
ISBN: 9788580575200
Editora Intrinseca
576 páginas
1ª edição (2014)
Encontre no Submarino e na Saraiva.

Sinopse:
No começo dos anos 2000, quando o envio de SMS pelo celular ainda era novidade, dezenas de empresas disputavam o mercado de dispositivos móveis. Hoje, apesar da variedade de smartphones, tablets e aplicativos, dois nomes dominam a cena: Apple e Google - que agora ameaçam eliminar uma à outra. Na era de Androids e iPhones, as duas companhias estão em confronto não só no mercado, mas também nos tribunais e nas telas de todo o mundo.
O jornalista Fred Vogelstein acompanhou essa rivalidade desde o começo. Ele nos leva aos escritórios e salas de reunião das gigantes da tecnologia e descreve um mundo de alianças obscuras onde funcionários são sistematicamente pressionados além do limite e o único objetivo é vencer. Vogelstein mostra o que está por trás das acusações de plágio, dos acordos controversos e dos processos judiciais que determinarão a maneira como nos comunicamos. Ele relata, por exemplo, que o atual presidente executivo do Google, Eric Schmidt, foi desligado do conselho de administração da Apple por suspeita de espionagem em 2007, que o protótipo do iPhone 4 já foi esquecido num bar e que Jobs tentou algumas manobras para frear o uso da tecnologia multitoque pelo Google.
Em Briga de Cachorro Grande, uma obra repleta de detalhes inéditos e surpreendentes, o autor revela que não importa saber qual aparelho substituirá nossos celulares e laptops, mas quem controlará o conteúdo nos dispositivos móveis que passaram a fazer parte do nosso dia a dia. Esta não é uma simples história de batalha corporativa; é um relato de amizades desfeitas, traições e trapaças, e o que está em jogo é o futuro da informação e da mídia.

Briga de Cachorro Grande é um lançamento da Intrínseca – não mais tão lançamento assim (risos). Um livro técnico sobre a revolução causada no mercado de eletrônicos com a criação do iPhone e do Android.

Como livros técnicos definitivamente não são tão atrativos ao público do blog, devo dizer com antecedência que todos os que gostam de tecnologia e afins deveriam dar uma chance a este aqui.

Sobre o enfoque: o livro vai narrar os acontecimentos desde 2002 até os últimos anos, com a criação do iPhone da primeira geração até o iPad. Vai incluir no texto trocentas entrevistas e até uma grande quantidade de dados técnicos, mas tudo muito bem espalhado e de forma alguma cansativo.

Briga de Cachorro Grande vai falar sobre Google e Apple – além de suas parceiras, como Nokia, Sony, etc –, não defendendo ou acusando uma ou outra, mas expondo verdades sobre ambas; da cópia de ideias, do intercâmbio de informações confidenciais, das falhas técnicas nas apresentações dos produtos e muito mais. Tudo de uma forma intensa e simples, o livro pode ser lido como um romance.

Eu curso um técnico em administração e me interesso bastante por histórias de empresas de sucesso, ainda mais empresas de um campo que me atrai tanto quanto o de tecnologias, então foi ótimo poder conciliar as referências que obtive com o prazer de ter lido tal “história”.

Como já disse antes, Briga de Cachorro Grande é um livro técnico para ser lido por todos. Uma narrativa singular, muito mais dinâmica que a de muitas biografias e definitivamente indispensável a qualquer um que queira argumentar a respeito das gigantes do mercado.

Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver

Lionel Shriver
Editora Intrínseca
ISBN: 978-85-98078-26-7
464 páginas
Encontre na Saraiva (Edição Movie Tie-In).

Sinopse:
Para falar de Kevin Khatchadourian, 16 anos – o autor de uma chacina que liquidou sete colegas, uma professora e um servente no ginásio de um bom colégio do subúrbio de Nova York –, Lionel Shriver não apresenta apenas mais uma história de crime, castigo e pesadelos americanos: arquiteta um romance epistolar em que Eva, a mãe do assassino, escreve cartas ao marido ausente. Nelas, ao procurar porquês, constrói uma reflexão sobre a maldade e discute um tabu: a ambivalência de certas mulheres diante da maternidade e sua influência e responsabilidade na criação de um pequeno monstro. Precisamos falar sobre o Kevin discute casamento e carreira; maternidade e família; sinceridade e alienação. Denuncia o que há de errado com culturas e sociedades contemporâneas que produzem assassinos mirins em série e pitboys. Um thriller psicanalítico no qual não se indaga quem matou, mas o que morreu.
Enquanto tenta encontrar respostas para o tradicional onde foi que eu errei? a narradora desnuda, assombrada, uma outra interdição atávica: é possível odiarmos nossos filhos?

Uma das melhores coisas de ser leitor é começar a ler um livro com pouco ou nenhum conhecimento sobre ele e ser surpreendido durante a leitura. Precisamos falar sobre o Kevin foi uma surpresa assim. É necessário dizer, porém, que não foi uma leitura rápida, e em muitas vezes também não foi muito confortável. Nunca tive tanta dificuldade em escrever uma resenha sobre um livro de que gostei tanto.

Ao começar a leitura, eu não tinha noção nenhuma do que a história iria abordar além da história pueril de um filho problemático que consegui imaginar a partir do título. Também não havia assistido ao filme, e isso tudo foi muito bom e contribuiu para a grande surpresa que o livro acabou sendo. A história e sua abordagem foram se revelando aos poucos muito mais maduras, profundas e detalhadas do que eu poderia imaginar. Durante toda a leitura, em momento nenhum era possível relaxar. Eu já li muitos livros diferentes do meu gosto usual, mas este foi o primeiro que realmente me fez sentir arrastado para fora da minha zona de conforto.

Lionel Shriver conta a história como um romance epistolar, narrado por Eva Katchadourian em cartas que escreve a seu marido, Franklin. Durante a primeira centena e meia de páginas nós conhecemos Eva, que é uma personagem não muito carismática. Eva é arrogante e orgulhosa, uma mulher sofisticada e altiva que é um verdadeiro nojo. Por isso, esse primeiro período do livro parece ser um tanto mais arrastado, tamanho é o desagrado que é conhecer melhor a protagonista. É impressionante como isso não prejudica de forma alguma o desenrolar da história. Ao invés de me sentir inclinado a desistir do livro por conta de uma personagem assim tão miserável, senti que Lionel Shriver havia colocado um diabo sentado em meu ombro para me arrancar o sossego e me desafiar a terminar a leitura.

Eva é uma mulher muito inteligente, sincera e crítica, então, nas divagações que faz em suas cartas, ela muitas vezes enfia o garfo em muitas feridas abertas de todas as pessoas. Suas cartas estão cheias de frases de embrulhar o estômago, algumas verdades impiedosas sobre as pessoas, a vida, o amor, o sexo, a família, casamento. Durante o livro, Eva tem bastante tempo para espetar quase todos os assuntos em sua língua pontuda.  Há um interlúdio, uma passagem um pouco menor logo após a primeira, em que Eva fala sobre os primeiros anos de seu casamento com Franklin. Esse período do livro destruiu qualquer vestígio da ideia de felicidade conjugal padrão comercial de margarina que ainda havia em minha mente. É então que vem o “segundo ato” da história, quando nasce o menino sobre o qual precisamos falar.

Contar qualquer detalhe sobre a relação da mãe com o filho será um grande spoiler. Eva, desde o começo, demonstra despreparo para educar o filho. Ao contrário dela, Franklin mostra ter nascido para isso, tornando-se um pai coruja e conquistando de Kevin um carinho que a mãe não conseguiu. No desenrolar dessa segunda metade do livro, Eva se desenvolve ainda mais, e eu arriscaria dizer que é a melhor protagonista que eu já vi até hoje. Da metade ao fim do livro é quando ele se torna mais impossível de largar. A relação entre Kevin e a mãe só vai se tornando mais difícil com o decorrer da leitura, e não sei se devo ter vergonha de dizer que estive curiosíssimo para ler mais e mais disso – estava achando toda essa tragédia grega deliciosa.

Precisamos falar sobre o Kevin foi um divisor de águas para mim. Um livro pelo qual eu não daria nada e que foi uma das maiores – se não a maior – surpresas que já tive na vida de leitor. É um favorito para a vida inteira que vou sempre querer abraçar forte quando tirar da estante e começar a ler tudo outra vez. Lionel Shriver ganhou um fã.

Review de Séries: Dominion S01E01



Legião (no original, Legion), lançado em 2010, foi um dos filmes de ação que mais reassisti nos últimos anos. Lembro-me de ficar viciado no ano em que o assisti pela primeira vez, vendo e revendo até cansar. Após ter lido A Batalha do Apocalipse, de Eduardo Spohr, meu interesse pela mitologia hebraico-cristã e toda aquela coisa de anjos guerreiros, lutas épicas e asas all over the place só aumentou, sendo que Legião saciou muito bem essa minha sede na época. Embora não seja absurdamente bom, é um filme de ação bastante divertido que, apesar dos pesares, foi meu favorito por um bom tempo.

O fim de Legião deixa uma série de pontas soltas que indicam uma possível continuação. E agora, após quatro anos, ela saiu, mas em outra mídia. O canal americano Syfy encomendou a primeira temporada de uma série baseada no filme, e a estreia aconteceu na última quinta-feira, 19/06. A surpresa foi mais do que satisfatória. Não consigo explicar a minha empolgação com o seriado. Ele dá muito mais espaço para os roteiristas explorarem todas as possibilidades que a trama deixa após o final do filme e, embora não seja obrigatório, achei necessário e recomendo que todos assistam ao filme antes de começar o seriado.

Aviso:
Daqui para frente, haverá spoilers de Legião. Prossiga por sua própria conta e risco.



Dominion se passa quase três décadas após os eventos de Legião. Os anjos de Gabriel devastaram o planeta todo em uma guerra contra os homens, que, por sinal, conseguiram resistir muito bem. No cenário pós-apocalíptico apresentado na abertura do episódio, vemos que as pessoas conseguiram se organizar em cidades-fortaleza, onde se torna mais fácil sobreviver. É mostrada apenas uma cidade, Vega, e há menção de uma segunda, Helena, mas fica bem claro que cada uma é totalmente independente da outra e tem suas próprias leis e governos.

Já nos primeiros minutos da série, conseguimos ver asas de um anjo de Gabriel – no filme, os anjos de seu exército não conseguem manifestar as asas – e, durante o episódio, mais e mais delas aparecem para encher os nossos olhos em cenas maravilhosas. Os efeitos mais legais do seriado são as asas, definitivamente.

Vega é governada por um general (com a ajuda de seus subordinados – cônsules e coisas assim), que se reporta diretamente ao único anjo do nosso lado na guerra: Miguel. O mesmo anjo que, no filme, vem à Terra para proteger e salvar “O escolhido”. É interessante observar que o elenco do seriado não tem nenhum ator do original – logo, tanto Miguel quanto qualquer outro personagem que apareceu na película e retorna aqui é interpretado por um ator diferente. O novo ator que ocupa o papel de Miguel deu uma cara nova ao personagem, que se torna menos heroico e durão e mais altivo e arrogante, continuando, porém, bastante badass nas sequências de luta.




Na história, dentro do mundo que se criou após toda a guerra iniciada em Legião, começou uma espécie de nova religião do escolhido, onde as pessoas rezam para ele e esperam pela sua volta. Entende-se que, nesse intervalo de tempo, Miguel escondeu a criança e ninguém sabe quem ela é (nós sabemos muito bem, desde o começo do episódio). Essa religião me causou um certo estranhamento, pois parece muito mais pagã do que cristã (embora ela não seja exatamente cristã), mesmo que nesse universo com tantos anjos voando por todo lado, predomine a mitologia cristã como verdade.



O episódio é longo, com pouco mais de uma hora de duração. Ao contrário de seus filmes, o Syfy costuma entregar seriados bem legais e, mesmo assim, me surpreendeu com todo o investimento feito em Dominion. Ele está com uma qualidade geral muito boa e, considerando a média de orçamento de um seriado de canal pequeno, que limita a qualidade e quantidade de cenas em CGI por episódio, conseguiu apresentar ótimos efeitos especiais, mais do que necessários para todas as cenas de vôo, animação das asas e tudo mais. As cenas de ação estão ótimas, embora claramente menos elaboradas do que no filme. Mesmo assim, são bonitas de se ver. A coreografia dos combates está bastante boa. Enfim, Dominion me deixou embasbacado, surpreso e apaixonado pelo seriado. Quero mais, e mal posso esperar pelo segundo episódio da temporada!


Visite o site de Dominion no Syfy.




A Faca Sutil, de Philip Pullman


Philip Pullman
Editora Objetiva
ISBN: 9788539005321
Ano: 2013
Páginas: 300
Encontre no Submarino.

Sinopse:
Em "A Faca Sutil", Lyra viaja para Cittàgazze, um mundo assombrado onde conhece Will. Juntos eles vão de um mundo a outro, encontram um objeto de poder extraordinário e descobrem a verdade sobres seus destinos. Numa narrativa envolvente, Pullman conduz o leitor a um mundo mágico. Acompanhando a jovem Lyra, que se lança numa busca desesperada e enfrenta terríveis obstáculos quando seu amigo Roger desaparece, o escritor nos apresenta um universo de fantasias onde os daemons correm pelas ruas de Oxford e Londres...onde um redemoinho de poeira misteriosa está por toda parte, tornando possível às crianças conhecerem segredos que os adultos dariam tudo para desvendar.

Desde a resenha de A Bússola de Ouro, estou ansioso por esse texto: finalmente a análise de A Faca Sutil, segundo livro da trilogia Fronteiras do Universo, do Master Lorde da Galáxia Philip Pullman.

Não há modo de falar sobre a história sem dar spoilers, até porque todo o enredo do segundo livro é uma consequência direta do final do primeiro, então, caso você não queira saber sobre a história, pule os próximos 2 parágrafos e seja feliz! ;)

A Faca Sutil introduz um novo personagem, chamado Will, que inicialmente não me pareceu promissor, mas que, no decorrer do livro, acaba se tornando um dos maiores prós do volume. Will vive com a mãe, uma moça aparentemente perturbada, e é perseguido por alguns homens, tendo que fugir constantemente. Will acaba, em uma dessas fugas, achando uma “janela” suspensa no ar – não entenda janela como uma janela convencional, mas como um vácuo, algo assim. Entrando nessa janela, Will descobre um novo mundo e – ó, que surpresa – é nesse mundo que ele encontrará a garotinha mais corajosa e aventurada que a história já mencionou: Lyra da Língua Mágica.

Will e Lyra passam por diversas aventuras e encontros com pessoas desagradáveis, aprendem mais coisas sobre o pó e sobre um item relacionado ao Aletiômetro, uma suposta Faca que pode cortar tudo, até passagens para outros mundos. Enquanto isso, Lorde Asriel está em algum mundo construindo uma fortaleza, se tornando tão forte que há indícios de que ele vá desafiar o próprio Deus a um duelo. Seres de todos os cantos se preparam para uma batalha.

A Faca Sutil ultrapassou A Bússola de Ouro em inúmeros sentidos. A narrativa? Mais ágil e delicada do que nunca. Os personagens? Mais cômicos, dinâmicos e perigosos. O enredo? Uma mistura de “onde é que isso vai terminar” e “NÃOACREDITOQUEISSOACONTECEUCOMOASSIMTENHOQUELERDENOVO”.

Philip finalmente entendeu que a série poderia ser mais que o plot principal e parte com insanidade para as referências político-religiosas. Diversas pistas e discussões implícitas são deixadas como easter-eggs em todo o livro, muitos personagens não medem a língua para expor suas opiniões sobre o Magistério e a crítica definitivamente não passa despercebida: a podridão camuflada de supostas boas intenções.

Ao contrário das trilogias convencionais, o volume "do meio" desta aqui não é apenas uma "ponte" entre o primeiro e o terceiro livros, mas uma continuação mais que digna de uma história cheia de mistério, humor, aventuras, lutas e, mais que isso, missões all over. Lyra e Will têm que buscar coisas, encontrar pessoas, espionar, fugir, tudo isso com um mundo (ou vários, rsrsrs) de coisas acontecendo no plano de fundo.

De fato, nossa ilustre Editora não poderia estar mais correta que isso: a série parte do bom para o melhor. Altas expectativas estão envoltas em A Luneta Âmbar, terceiro e último volume. Espero que me restem algumas unhas depois de tudo e que Lyra finalmente resolva seus problemas com seus pais, seus aliados e, principalmente, seus inimigos ambiciosos que aparentemente não podem esperar para botar as mãos em sua preciosa bússola da verdade.